De ritmos e ciclos da vida

"No Japão, na primavera, comemos pepino".
Shunryu Suzuki

"Pelos caminhos mais corriqueiros, perdemos a diretriz da natureza no sentido de vivermos de acordo com os ritmos e ciclos da alma. Comemos alimentos que estão fora de estação e por vezes até alteramos nossos relógios para driblar e crepúsculo e expandir a luz do verão". - Thomas Moore

Relendo um dos belos livros que guardo com especial carinho, "O Self Original" de Thomas Moore, sinto-me inspirado a divagar por reflexões que me reportam ao triste e linear modo de viver nesta moderna sociedade humana. O livro é belo pela sua simplicidade e brevidade (detesto livros grossos); assim como tudo que na vida é agraciado pela simplicidade torna-se belo, eficaz e eterno.

Na vida moderna, já não se respeita mais os ritmos da natureza, da vida, nem as estações do ano. Come-se frutas sem o seu sabor natural, produzidas fora de suas estações por avançadas tecnologias genéticas e a força de adubos químicos que deixam gosto de petróleo em tudo, só porque não se tem mais paciência de esperar o tempo certo de cultivo - os ciclos da natureza. Altera-se a hora no relógio na doce ilusão de se ter domínio e controle sobre o tempo, só para ganhar alguns minutos a mais de sol no verão. Aparentemente inocente, essa mudança causa tremendo desajuste na biologia rítmica humana. O relógio interno do organismo humano não pode ser alterado por decreto, como fazem governantes desprovidos de suficiente inteligência para entender a vida, levados por interesses que contrariam a vida e satisfazem apenas aqueles que lucram com isso. Inversão de valores, qualquer coisa vale mais que a vida.

Vivemos preocupados com o passado e querendo antecipar o futuro, criando angustia e ansiedade, verdadeiros ácidos corrosivos que apressam a degeneração orgânica e provoca o surgimento de doenças.

Todo esse descompasso da vida com ela mesma, digo, a vida fora de seus ciclos e ritmos naturais, como as pessoas querem viver, abre perspectivas desalentadoras para o futuro da humanidade. Mas, nem tudo está perdido, e ainda que tudo pareça desanimador, a vida renasce em outras perspectivas renovando a alma humana a cada geração que vem. Somos natureza, e se nos mantermos em sincronia com os ciclos da vida, com as estações e com o clima, teremos oportunidade efetiva de nos afinarmos com nosso eu profundo. O sol, a lua e os planetas todos, nos fornecem padrões de energias cíclicas impulsionando nossa evolução. As plantas fazem trocas conosco, absorvendo gás carbônico e liberando o oxigênio essencial à nossa sobrevivência. É fundamental que participemos mais ativamente desses movimentos salutares da natureza, a fim de equilibrarmos nosso sistema orgânico e vivermos em saudável harmonia conosco e com o todo.

Tenho me esforçado para tornar a minha vida simples e rítmica como é a natureza. Sigo as fases da lua, por exemplo, sem consultar o calendário, só observando as reações que suas influências causam em meu organismo, dando ritmo a meus ciclos emocionais. Esforço-me para desmistificar o mito da vida moderna, enclausurada nas necessidades criadas e estendidas na teia da sociedade como status pelo ego das pessoas. Avanço por sobre velhos paradigmas com a cara e a coragem para provar que somos mais que tubos de consumo de qualquer porcaria que nos vendem em nome do status que sustenta os egos na sociedade moderna. Não sou propriamente contra a sociedade e suas artimanhas, mas reservo-me de seguir sua linearidade sem graça. Prefiro as oscilações que minha alma solicita a ser um mero espectador de pipoca em mãos assistindo ao deprimente espetáculo da epopéia humana, dirigido por um mito inventado para manter o vazio de egos sem alma.

Em terapia, percebo as dificuldades que as pessoas têm para aceitar e lidar com as coisas mais simples da vida, como as oscilações rítmicas das estações do ano, das fases da lua, das mudanças de temperatura e de seus próprios ciclos e ritmos internos. Percebo que a maioria sofre porque simplesmente se desconectou de seu centro e perdeu parte de sua alma, criando um vazio interno, o buraco que leva à depressão.

Entendo ego diferente do conceito que a psicologia usa para defini-lo, e alma como sendo a expansão do psiquismo espiritual e campo de todas as experiências espirituais na vida. O ego segue linearmente seu próprio desejo de ter controle, enquanto que a alma é expansiva e rítmica e em suas oscilações arrasta o ego para o desespero, quando não consegue dominar e controlar as flutuações da natureza da alma. Ego e alma chocam-se quando o assunto é liberdade, quando sensações vindas de dentro chocam-se com a moral escrita à força na alma. E por se encontrar divididos entre a natureza pura do Self e a moralidade, entre anseios da alma e desejos do ego, é que as pessoas em geral têm todas essas dificuldades.

Luiz Antônio Trevizani