O
Rebelde
Osho
O
Rebelde não tem caminho algum para seguir; aqueles que seguem
algum caminho não são rebeldes. O próprio espírito
de rebeldia não necessita de qualquer orientação.
Ele é uma luz em si mesmo.
As
pessoas que não podem se rebelar pedem por orientação,
querem ser seguidoras. A psicologia delas é a de que ser um
seguidor as alivia de todas as responsabilidades; o guia, o mestre,
o líder, os messias se tornam responsáveis por tudo.
Tudo o que se requer do seguidor é apenas que tenha fé.
E apenas ter fé é um outro nome para a escravidão
espiritual.
O
rebelde está em um estado de tremendo amor pela liberdade -
liberdade total, nada menos do que isso. Daí ele não
ter salvador, mensageiro de Deus, messias ou guia algum; ele simplesmente
vive de acordo com sua própria natureza. Ele não segue
ninguém, não imita ninguém. Certamente ele escolheu
o modo de vida mais perigoso, cheio de responsabilidades, mas de uma
alegria e liberdade tremendas.
Ele
muitas vezes falha, comete erros, mas nunca se arrepende de nada,
porque aprendeu um profundo segredo da vida:ao cometer erros você
se torna sábio. Não
existe outra maneira de se tornar sábio.
Ao
extraviar-se, você conhece mais claramente o que está
certo e o que está errado, porque tudo aquilo que lhe dá
miséria, sofrimento, que torna sua vida uma escuridão
sem fim, sem amanhecer.. isso significa que você se extraviou.
Perceba-o - e volte novamente para o estado de ser onde você
está em paz, silencioso, sereno, uma fonte de felicidade, e
estará novamente no caminho certo. Não existe outro
critério além desse. Estar
em estado de graça é estar certo. Estar
infeliz é estar errado.
A
peregrinação do rebelde está repleta de surpresas.
Ele não tem mapa, nem guia, assim, a cada momento ele está
entrando em um novo espaço, em uma nova experiência -
em direção à sua própria experiência,
à sua própria verdade, ao seu próprio êxtase,
ao seu próprio amor.
Aqueles
que são seguidores nunca conhecem a beleza de experienciar
coisas novas. Eles sempre têm usado conhecimento de segunda
mão, e fingido serem sábios. As pessoas são certamente
muito estranhas. Elas não gostam de usar sapatos de segunda
mão; nem mesmo em seus pés elas porão sapatos
de segunda mão. Mas quanto lixo elas estão carregando
em suas cabeças... simplesmente sapatos de segunda mão!
Tudo o que elas sabem é emprestado, imitado, aprendido - não
pela experiência, mas somente pela memória. O conhecimento
delas consiste em memorização. O
rebelde não tem um caminho como tal. Ele
anda, e faz o seu caminho enquanto anda. O
rebelde assemelha-se a um pássaro voando no céu; que
caminho ele segue?
Não
existem estradas no céu, não existem pegadas de pássaros
ancestrais, de pássaros notáveis, Gautama Budas. Nenhum
pássaro deixa qualquer pegada no céu; portanto o céu
está sempre aberto. Você
voa e faz o seu caminho.
Encontre
a direção que lhe dê alegria. Mova-se para a estrela
que toque sinos em seu coração. Você deve ser
o factor decisivo, ninguém mais!
É
por isso que falei muitas vezes sobre o caminho do meio, quando estava
contradizendo as pessoas que seguiam o extremo, porque o extremo nunca
pode ser completo. Ele é somente uma polaridade. Em certos
contextos eu o contradisse, dizendo que estar em uma polaridade é
perder a outra polaridade, é viver somente metade da vida.
Você permanecerá sempre sem alcançar algo tremendamente
valioso, e você nunca saberá o que é. Naquele
contexto eu falei a respeito do caminho do meio.
O
homem que percorre o caminho do meio, o centro dourado - exatamente
no centro - tem ambos os extremos, como duas asas alcançando
os ângulos mais distantes. Ele abrange toda a polaridade em
seu ser. Ele permanece no meio, mas suas asas alcançam ambos
os extremos simultaneamente. Ele vive uma vida de totalidade.
Mas
em outro contexto, eu falei contra o caminho do meio - porque a vida
não é tão simples de se compreender. Ela é
o fenômeno mais complexo do mundo. Ela
tem que ser, porque é o mais evoluído estado de consciência
de toda a existência.
A
sua complexidade básica é que você nunca pode
falar sobre ela em sua totalidade; você somente pode falar sobre
um aspecto. E quando está falando sobre um aspecto você
está automaticamente negando outros aspectos, ou pelo menos
ignorando-os, e a vida é uma combinação de todas
as contradições.
Assim,
quando você está falando sobre um aspecto, o seu aspecto
contraditório - que também faz parte da vida, tanto
quanto o aspecto de que você está falando - tem que ser
rejeitado, negado.
Compreender-me
significa compreender tudo em um certo contexto. Nunca tome minhas
palavras fora do contexto; do contrário você ficará
simplesmente desnorteado, confuso. Algumas vezes falei sobre o caminho
do meio porque, como lhes disse, ele abrange a totalidade da vida;
sua beleza é sua totalidade. Algumas vezes falei em favor dos
extremos, porque o extremo tem sua própria beleza.
A
vida do homem que anda no centro é sempre morna. Ele é
muito cauteloso. Ele
dá cada passo muito calculadamente, com medo de que possa se
mover para o extremo.
O
homem que segue o caminho do meio não pode viver com paixão;
não pode queimar sua tocha da vida em ambos os extremos, simultaneamente.
Para isso, é preciso aprender a vida nos pontos extremos. O
ponto extremo conhece intensidade, mas não conhece totalidade.
Assim, quando eu estava falando a respeito de intensidade, enfatizei
os extremos. Mas tudo isso foi dito em um certo contexto.
Eu
também disse que não havia caminho. Com a idéia
de caminho, sempre concebemos estradas, auto-estradas, que já
existem - você precisa apenas andar nelas. É por isso
que tenho negado que exista qualquer caminho. No
mundo da realidade, você tem que criar o caminho enquanto anda
sobre ele.
À
medida em que você anda, você cria, passo a passo, um
caminho; aliás, você está entrando em um território
desconhecido, sem qualquer fronteira, trilha ou marco. O seu andar
está criando o caminho, certamente, mas você não
o pode seguir; você já andou sobre ele - é desta
forma que ele foi criado.
E
lembre-se, seu caminho não vai ser o caminho de ninguém
mais, porque cada indivíduo é tão único
que se ele seguir o caminho de outro, ele perde sua própria
identidade, ele perde sua própria individualidade, e esta é
a experiência mais bela da existência.
Perdendo
a si mesmo, o que você vai ganhar? Você se tornará
simplesmente um hipócrita. É por isso que todas as assim-chamadas
pessoas religiosas são os maiores hipócritas do mundo;
elas estão seguindo Jesus Cristo, ou Gautama Buda ou Mahavira.
Essas
pessoas não são somente hipócritas; essas pessoas
são também covardes.
Elas
não estão tomando a própria vida em suas próprias
mãos, não estão sendo respeitosas com a sua própria
dignidade, não estão tentando descobrir: "Quem
sou eu?" Estão simplesmente tentando imitar alguém.
Elas podem se tornar bons atores, mas nunca podem se tornar elas mesmas.
E a sua representação - por mais bonita que seja, por
mais correta que seja sempre permanecerá algo superficial,
simplesmente uma camada de poeira sobre você. Qualquer situação
a pode perturbar, e a sua realidade surgirá. Você
não pode perder a sua singularidade. Ela
é seu verdadeiro ser.
E
particularmente o rebelde... sua própria base, sua própria
espiritualidade, a totalidade de seu ser é uma afirmação
de sua singularidade. Isso não significa que ele esteja afirmando
o seu ego, porque ele também respeita a singularidade do outro.
As
pessoas não são iguais, nem desiguais. Essas filosofias-
são totalmente antipsicológicas, não são
baseadas em verdades científicas. A própria idéia
de igualdade é absolutamente sem fundamento. Como você
pode conceber seres humanos únicos como sendo iguais?
Sim,
a eles deveriam ser dadas iguais oportunidades - mas para quê?
Por
uma razão muito estranha. A eles deveriam ser dadas iguais
oportunidades para que cresçam e sejam eles mesmos. Em outras
palavras, a eles deveriam ser dadas iguais oportunidades para serem
desiguais, para serem únicos.
É
a variedade de flores diferentes, de cores diferentes, de fragrâncias
diferentes, torna o mundo rico.
Todas
as religiões tentaram deixar o mundo mais e mais pobre.
Imaginem,
hoje a população do mundo está chegando perto
de - talvez ao final deste mês ela já tenha alcançado
- cinco bilhões. Imaginem, cinco bilhões de pessoas
como Mahavira, andando nuas por toda a terra. Elas nem ao menos encontrarão
comida. Quem irá lhes dar? Onde irão mendigar? Porque
para onde quer que se voltem, encontrarão um outro Mahavira,
nu e faminto, pedindo por comida.
É
bom que as pessoas não sejam tão estúpidas, que
não tenham seguido toda essa gente até o fim. Despediram-se
delas e disseram: "Nós adoraremos vocês, faremos
templos para vocês, mas perdoem-nos, nós não podemos
ir tão longe. Isso é somente para pessoas especiais"
- somente para vinte e quatro pessoas em toda a criação,
dentre as quais os historiadores pensam que vinte e uma são
absolutamente falsas, nunca existiram; somente três são
personagens históricas. Mas naquele tempo a idéia e
o número vinte e quatro certamente se tornaram muito impressivos.
Algumas
vezes os números também têm os seus dias de moda.
Nos Estados Unidos, o número treze é considerado muito
perigoso. Ora, ele é um pobre número como qualquer outro
número; em todo o mundo, ninguém pensa nada sobre o
número treze. Mas nos Estados Unidos, os hotéis simplesmente
não têm o décimo terceiro andar; eles não
o numeram. E então - depois do décimo segundo vem o
décimo quarto! O décimo terceiro simplesmente não
surge, porque ninguém quer permanecer no décimo terceiro
andar. As prefeituras não podem por o número treze em
nenhuma casa; o número treze simplesmente está faltando
em cada cidade. Depois do doze vem o catorze, porque ninguém
quer ter o número treze, ele é nefasto.
Nos
dias de Mahavira o número vinte e quatro se tornou um número
muito espiritual. Essas coisas acontecem como moda. Você não
pode dar qualquer evidência muito racional do motivo de elas
acontecerem.
Os
jainas declararam que têm vinte e quatro tirthankaras. O número
vinte e quatro tornou-se importante porque o dia tem vinte e quatro
horas, e toda a criação é concebida quase como
um dia - metade será uma noite escura e metade estará
cheia de luz.
Em
uma criação existirão vinte e quatro tirthankaras...
exatamente como um velho relógio de parede com um sino que
toca a cada hora. Esse tipo de relógio ainda existe nas torres
das cidades e nas universidades. Ninguém quer esses relógios
em casa, porque por toda a noite você não pode dormir.
O relógio não tem consideração se você
está dormindo ou acordado; ele simplesmente segue em frente
mecanicamente. A mecânica da existência, de acordo com
o jainismo, é que cada hora da existência - isso significa
milhões e milhões de anos - será precedida por
um tirthankara e sucedida por outro. É por isso que existem
vinte e quatro tirthankaras. Somente três, ou no máximo
quatro; o quarto é um pouco duvidoso... mas vinte são
certamente uma criação da imaginação para
completar o número vinte e quatro.
Gautama
Buda... seus seguidores certamente devem ter sentido: "Nós
somos muito pobres, temos somente um buda e essas pessoas têm
vinte e quatro tirthankaras, todos acordados, todos iluminados. Nossa
religião é muito pobre, algo deve ser feito". Essa
é uma clara competição no mercado! Eles não
podiam dizer que houve vinte e três budas antes, porque não
havia a menor indicação em sua história, não
havia templo dedicado a qualquer outro buda, nem escritura descrevendo
qualquer outro buda. Isso era muito difícil para eles, assim
encontraram uma nova maneira. Eles criaram uma história de
que o próprio Gautama Buda nascera vinte e três vezes
anteriormente. Tudo o que ele dissera anteriormente, iria dizê-lo
completamente refinado, bem sistematizado, na vigésima quarta
vez, quando ele estaria vindo pela última vez ao mundo - e
é por isso que não existe nenhuma escritura. Mas eles
conseguiram o número vinte e quatro.
Até
aquele momento os hindus tinham somente dez avataras, dez encarnações
de Deus. De repente eles se sentiram... até a época
de Mahavira, todas as escrituras descrevem somente dez encarnações
de Deus. Mas de repente eles viram que pareciam pobres no mercado,
se alguém perguntasse - só dez? Os jainas têm
vinte e quatro, os budistas têm vinte e quatro; vinte e quatro
é a lei universal, porque naquela época essas eram as
únicas três religiões na Índia.
Os
hindus estavam em grande perplexidade, o que fazer? - porque todas
as suas velhas escrituras dizem que há somente dez encarnações.
Eles estavam em uma situação mais difícil do
que os budistas. Pelo menos os budistas não tinham escrituras,
assim eles arranjaram uma bela história: nada foi registrado
porque em sua última encarnação, Buda diria a
versão mais refinada. Ele ensaiou vinte e três vezes,
na vigésima-quarta ele virá com absoluta perfeição.
Desta vez será registrado, estátuas serão feitas,
templos serão feitos. Pelo menos nada era contrário
à imaginação deles; eles podiam dar um jeito,
no vácuo, para preencher os intervalos com budas imaginamos.
Mas os hindus estavam em maior dificuldade. Todas as suas escrituras,
sem exceção, estavam falando apenas de dez. Mas eles
começaram a escrever novas escrituras, sem se preocuparem com
a tremenda contradição criada por isto.
Todas
as escrituras criadas pelos hindus depois de Buda e Mahavira, têm
vinte e quatro encarnações de Deus. O número
tem que ser igual! Essas
religiões não têm ensinado a verdade. Essas
religiões têm apenas escravizado a humanidade.
Elas
estavam tentando trazer para o seu rebanho tantas pessoas quanto podiam,
porque números trazem poder. E os covardes estavam prontos
para seguir o rebanho, a multidão, porque os covardes estavam
se sentindo sozinhos, com medo. Este vasto universo e você está
sozinho... ninguém, nem mesmo um companheiro - completo silêncio
nos céus, ninguém para lhe mostrar o caminho, ninguém
para lhe dar orientação.
O
rebelde é o ser espiritual real. Ele não pertence a
rebanho algum, não pertence a sistema algum, não pertence
a organização alguma, não pertence a filosofia
alguma. Em palavras simples e conclusivas: ele não se empresta
aos outros. Escava fundo dentro de si mesmo e encontra seus próprios
néctares de vida, encontra suas próprias fontes de vida.
Qual
a necessidade de um caminho? Você já está aqui
- você existe, você é consciente. Tudo aquilo que
é necessário à busca básica é dado
a você pela própria existência. Olhe
para dentro de sua consciência e descubra o seu sabor. Olhe
para dentro de sua vida e descubra a sua eternidade.
Olhe
para dentro de você mesmo e descobrirá que o mais puro,
o mais sagrado templo é o seu próprio corpo - porque
ele guarda o sagrado, o divino, tudo o que é belo, tudo o que
é verdadeiro, tudo o que é valioso.
Você
está perguntando: "O que guia o rebelde?"
Esta
é a beleza do rebelde: ele não necessita de um guia.
Ele é seu próprio guia, é seu próprio
caminho, é sua própria filosofia, é seu próprio
futuro.
Ele
é uma declaração de que "Sou tudo o que
preciso e a existência é meu lar. Não sou um estranho
aqui".