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Fragmentos de Uma Gestalt

1. A oração da Gestalt-terapia é:
Eu faço as minhas coisas, você faz as suas. Não estou neste mundo para viver de acordo com suas expectativas, e você não está neste mundo para viver de acordo com as minhas. Você é você, e eu sou eu, e se por acaso nos encontramos, é lindo. Se não, nada há a fazer.

2. A vida deve ser vivida e não comercializada, conceituada e restrita a um modelo de sistemas.

3. A ansiedade é o vácuo entre o agora e o depois. Se estivermos no agora não podemos estarmos ansiosos, porque a excitação flui imediatamente em atividade espontânea; seremos criativos, inventivos. Se os nossos sentidos estiverem preparados, e os nossos olhos e ouvidos abertos, como em toda criança pequena, nós acharemos a solução. Sempre que abandonamos a base segura do agora, e ficamos preocupados com o futuro, experimentamos ansiedade. Geralmente, a ansiedade não é tão profundamente existencial. Está apenas relacionada com o papel que queremos desempenhar, é apenas medo frente à audiência.

4. Existem dois tipos de controle:
a) O controle que vem de fora – você está sendo controlado pelos outros, por ordens, pelo ambiente, e assim por diante.
b) O controle interno, incorporado em todo o organismo – sua própria natureza.

5. Saúde é um equilíbrio apropriado da coordenação de tudo aquilo que somos.

6. Não se pode separar o organismo do ambiente. Temos sempre que considerar o segmento do mundo em que vivemos como parte de nós mesmos. Aonde quer que vamos, levamos sempre uma espécie de mundo conosco. Nós vivemos em busca de um interesse em comum, ou de um mundo em comum, onde, com o interesse, a comunicação e a união, passamos repentinamente do eu para o nós.

7. O caráter desenvolve um sistema rígido. O comportamento se torna petrificado, previsível, e perdemos a capacidade de lidar livremente com o mundo com todos os seus recursos. Ficamos predeterminados a lidar com os fatos de uma única forma, ou seja, de acordo com o que o caráter prescreve.

8. Toda vez que queremos mudar a nós mesmos ou mudar o ambiente, a base será sempre a insatisfação.

9. As fronteiras do ego são delimitadas por dois fenômenos: identificação e alienação. Dentro das fronteiras do ego existe geralmente coesão, amor, cooperação; fora dela existe suspeita, estranheza, não-familiaridade.

10. Nós geralmente não amamos uma pessoa. Nós amamos determinada qualidade desta pessoa, que é idêntica ao nosso comportamento ou complementar a ele. Nós pensamos que estamos apaixonados pela pessoa total, e na realidade existem outros aspectos dessa pessoa que nos desagradam. Assim, quando esses outros contatos acontecem, quando essa pessoa se comporta de um modo que não gostamos, mais uma vez não dizemos ‘isto é desagradável’, nós dizemos ‘você é desagradável’. O ódio é a função de jogar alguém para fora da nossa fronteira do ego, por alguma razão. Nós renegamos a existência de uma pessoa, e se a sua existência constitui para nós uma ameaça, queremos destruí-la. Mas é decididamente uma exclusão das nossas fronteiras, de nós mesmos.

11. Nós não nos sentimos atraídos por uma pessoa, não sentimos aversão por uma pessoa. Se observarmos melhor, percebemos que somos atraídos por um certo comportamento ou certa parte dessa pessoa, e se encontramos, por acaso, a coisa amada e odiada na mesma pessoa, estaremos num dilema. É muito mais fácil sentir aversão por uma pessoa e amar outra. Quando o amor e o ódio estiverem juntos, nos sentimos confusos.

12. Nós não nos permitimos – ou não nos permitem – sermos totalmente livres. Desta forma, nossa fronteira do ego escolhe cada vez mais. Nosso poder, nossa energia diminui cada vez mais. Nossa capacidade de lidar com o mundo torna-se cada vez menor – e cada vez mais rígida, lidando apenas de acordo com o que o caráter e seu modelo preconcebido prescreve. A fronteira do ego nos coloca sempre diante de um julgamento: eu estou do lado certo da cerca, você está do lado errado – ou nós estamos, se houver uma identidade grupal.

13. A Gestalt é o fenômeno experienciado, uma função orgânica; uma unidade de experiência fundamental. Assim que dissolvemos uma gestalt, ela já não será mais uma gestalt.

14. Auto-regulação versus regulação externa. A tomada de consciência em si – e de si mesmo – pode ter efeito de cura, porque com a tomada de consciência completa, podemos tornar presente a auto-regulação organísmica, podemos deixar o organismo dirigir sem interferência, sem interrupções; podemos confiar na sabedoria do organismo.

15. O dominador geralmente se julga com a razão e é autoritário; ele sabe mais. O dominador é um tirano e funciona com o ‘você deve’ e ‘você não deve’. O dominado manipula sendo defensivo, desculpando-se, representando o bebê-chorão. Ele não tem poder e diz sempre ‘amanhã’, ‘eu faço o melhor que posso’, ‘eu tento, tento, mas sai tudo errado’, ‘eu não posso fazer nada se não lembrei de seu aniversário’. Assim, dominador e dominado disputam o controle. Toda luta é sempre pelo controle; nós somos divididos em controlador e controlado. Geralmente aceitamos o dominador como certo, e em muitos casos o dominador faz exigências impossíveis e perfeccionistas. O perfeccionista não se apaixona pela pessoa, ele se apaixona pelo seu ideal e exige que o outro caiba nele.

16. A maioria das pessoas vive apenas em função da sua imagem.

17. Quanto menos confiança tivermos em nós mesmos, quanto menos contato tivermos com nós mesmos e com o mundo, maior será nosso desejo de controle.

18. O organismo trabalha sempre na base da preferência. O organismo possui a capacidade de cuidar de si mesmo, sem interferência externa – sem a ‘mamãe’ para dizer ‘isso é bom para a saúde’, ‘eu sei o que é melhor para você, e outras coisas mais.

19. A experiência do choque entre nossa existência social e nossa existência biológica resulta em confusão. A percepção em si; tomar consciência cada vez que entrarmos num estado de confusão, isto por si só já será algo terapêutico. E a natureza novamente assumirá o comando. Se entendermos isso, e permanecermos na confusão, a confusão por si mesma se ordenará. Se tentarmos ordená-la, computar o que fazer com ela, aplicar receitas prontas para sair da confusão, apenas acrescentaremos mais confusão àquilo que fizermos.

20. Aprendizagem e descoberta. Aprendemos a partir de nossas experiências. Outro tipo de aprendizagem é a colocação de informação em nosso computador para acumular conhecimento. Este conhecimento, esta informação secundária pode ser útil sempre que perdemos nossos sentidos. Enquanto podemos ver e ouvir, e perceber o que está acontecendo, então podemos compreender; se aprendemos conceitos e desejamos informação, então não estamos compreendendo, apenas explicando. E não é fácil entender a diferença entre explicação e compreensão, assim como não e fácil entender a diferença entre coração e cérebro, entre sentir e pensar. A maioria das pessoas acha que explicação é a mesma coisa que compreensão. Existe uma grande diferença.

21. Freqüentemente as crianças são mais maduras do que os adultos. O adulto raramente é uma pessoa madura. O adulto é uma pessoa que desempenha o papel de adulto, e quanto mais desempenha o papel, mais imaturo é.

22. Todo tipo de psicoterapia está mais ou menos interessado em enriquecer a personalidade, em liberar o que é geralmente chamado de partes reprimidas e inibidas da personalidade. Amadurecer é transcender o apoio ambiental para o auto-apoio. O objetivo da terapia é fazer com que a pessoa não dependa dos outros, e descubra desde o primeiro momento que ela pode fazer muito mais do que acha que pode. A pessoa comum de nossos tempos realiza de cinco a quinze por cento de seu potencial, no máximo. Uma pessoa que utiliza até vinte e cinco por cento de seu potencial é considerada um gênio.

23. Nós vivemos em meio a clichês. Vivemos de acordo com um comportamento padronizado; desempenhamos os mesmos papéis repetidamente.

24. A intuição é a inteligência do organismo. A inteligência é o todo, e o intelecto é a corrupção da inteligência – o computador, o jogo de encaixe.

25. Nosso potencial está baseado numa atitude peculiar – viver e considerar cada segundo de novo. O problema com pessoas capazes de considerar a cada segundo qual é a situação é o de não serem previsíveis. O papel do bom cidadão requer que ele seja previsível, por causa do nosso anseio por segurança, de não correr riscos, de nosso medo de sermos autênticos, de nosso medo de nos sustentarmos sobre nossos próprios pés, especialmente sobre nossa própria inteligência.Se estamos centrados sobre nós mesmos, não nos ajustaremos mais; aí, qualquer coisa que ocorra torna-se uma banda que passa, e assimilamos, compreendemos, nos relacionamos com tudo o que acontece.

26. Todo individuo, toda planta, todo animal tem apenas um objetivo inato – realizar-se em si naquilo que é. Na natureza – com exceção do ser humano –, a constituição, a sanidade, o crescimento, o potencial, são todos alguma coisa unificada.

27. No processo de crescimento existem duas escolhas. A criança pode crescer e aprender a superar frustrações, ou pode ser mimada. Pode ser mimada pelos pais que respondem a todas as perguntas, acertada ou erradamente. Pode ser mimada de forma a receber tudo o que quiser, porque a criança “deve ter tudo o que o papai nunca teve”, ou porque os pais não sabem como frustrar os filhos: não sabem como utilizar a frustração. Sem frustração não existe necessidade, não existe razão para mobilizar os próprios recursos, para descobrir a própria capacidade, para fazer alguma coisa; e, a fim de não se frustrar, o que é uma experiência muito dolorosa, a criança aprende a manipular o ambiente. Cada vez que o mundo adulto impede a criança de crescer, cada vez que ela é mimada por não ser frustrada o suficiente, a criança está presa. Assim, em vez de usar seu potencial para crescer, ela agora usará seu potencial para controlar o mundo, os adultos. Em vez de mobilizar seus próprios recursos, ela cria dependências. Ela investe sua energia na manipulação do ambiente para obter apoio. Ela controla os adultos começando a manipulá-los, ao discriminar seus pontos fracos. A medida que a criança começa a desenvolver meios de manipulação, ela adquire o que é chamado de caráter. Quanto mais caráter a pessoa tem, menor é seu potencial. Uma pessoa de caráter é nada mais que uma porção de respostas obsoletas.

28. “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez do homem”. – Albert Einstein. Mas muito mais difundida que a estupidez real é a estupidez fingida. Sempre queremos representar o conceito de que somos adoráveis.

29. A maneira de desenvolvermos nossa inteligência é transformar toda pergunta em afirmação. Um tolo pode fazer mais perguntas que mil sábios podem responder.

30. Aprender é nada mais do que descobrir que alguma coisa é possível. Ensinar quer dizer mostrar a uma pessoa que alguma coisa é possível.