Conceitos se perpetuam, muitas vezes, a partir de questões erroneamente interpretadas. Verdades são criadas nos laboratórios da intelectualidade, seja ela científica, filosófica, religiosa, política ou de outra natureza, e passam a vigorar quase incontestavelmente. Há inúmeros exemplos desses conceitos e, ao mesmo tempo, de suas mudanças quando se tornam insustentáveis ou quando alguma nova descoberta demonstra que já não servem mais para explicar determinada realidade.
Talvez tenha sido dessa maneira que alguém teve a brilhante ideia de criar o conceito de “códigos de ética”. Acho estranho isso porque ética não é um conjunto de regras, a exemplo da moral. A ética é um estado de justo bem que emerge da consciência profunda e independe de leis, regras e códigos.
O que se vê, muitas vezes, são interpretações equivocadas da moral como ética. A moral é essencialmente uma construção externa, relacionada aos costumes, às normas e aos padrões de comportamento estabelecidos por determinado grupo ou sociedade. A ética, ao contrário, é essencialmente interna. Ela desperta quando o ser humano compreende que é, ao mesmo tempo, o gerador e o receptor de todo conteúdo que emana de si para o mundo e que, pela lei de causa e efeito, tudo aquilo que emana de si afeta, de alguma maneira, a todos.
É comum encontrarmos, nas empresas e instituições, um conjunto de regras morais apresentado sob o título de “código de ética”. De nada adianta um código de ética para pessoas que ainda não despertaram para a consciência ética. Esses códigos podem ser válidos como regras limitadoras de comportamentos socialmente inadequados, mas não transformam a essência do ser humano. Apenas contêm seus impulsos instintivos para o mal.
É evidente que essas regras têm seu valor educativo e que, pela contenção desses impulsos, em algum momento, alguns indivíduos podem começar a perceber a necessidade de agir de maneira diferente. Mas há uma diferença fundamental entre não fazer algo porque existe uma regra que proíbe e não fazer algo porque se compreendeu que aquilo não deve ser feito. No primeiro caso, existe contenção, enquanto, no segundo, existe consciência. Essa diferença parece pequena, mas é fundamental.
Quem deixa de praticar uma ação inadequada apenas porque teme a punição continua sendo capaz de praticá-la quando acredita que não será descoberto. A regra, nesse caso, funciona como uma barreira externa entre o indivíduo e o seu impulso. Retire-se a barreira e o comportamento poderá reaparecer.
A consciência ética, porém, não depende da vigilância de ninguém. Aquele que desenvolveu consciência ética não precisa de uma ameaça de punição ou de uma recompensa para escolher o caminho que considera justo. Ele simplesmente compreende. E talvez seja justamente essa compreensão que diferencie a ética da moral.
A moral estabelece: “Não faça isso porque é errado ou proibido.”
Aquele que despertou a consciência ética se pergunta: “Por que eu faria isso se sei que minha ação produzirá consequências em mim e nos outros?”
A moral estabelece limites para o comportamento; a ética transforma a relação do indivíduo com o próprio comportamento.
A ética não precisa de testemunhas. Se precisamos de testemunhas para agir corretamente, talvez ainda não estejamos diante da ética, mas apenas diante da obediência.
Isso não significa que leis, normas e códigos sejam desnecessários. Ao contrário. Eles cumprem uma função importante na organização da vida coletiva. Uma sociedade não pode depender exclusivamente do grau de consciência de cada indivíduo para estabelecer seus limites de convivência.
As leis existem porque ainda precisamos delas; as regras existem porque ainda precisamos delas; os códigos existem porque ainda precisamos deles.
Mas não devemos confundir a necessidade dessas estruturas com a ética. Uma pessoa pode cumprir rigorosamente todas as normas de uma instituição e, ainda assim, agir de maneira profundamente antiética quando encontra uma brecha que lhe permita alcançar seus interesses pessoais. Pode cumprir a letra da lei e violentar o espírito da justiça. Pode não infringir nenhuma regra e, ainda assim, prejudicar deliberadamente alguém. Pode parecer correta diante dos outros e ser completamente diferente em sua intimidade.
É nesse ponto que a ética deixa de ser uma questão de comportamento e passa a ser uma questão de consciência. A verdadeira ética começa quando desaparece a necessidade de parecer ético.
Talvez o problema não esteja propriamente na existência dos chamados códigos de ética, mas naquilo que esperamos deles. Um código pode estabelecer aquilo que uma instituição considera aceitável ou inaceitável. Pode orientar comportamentos, prevenir abusos, estabelecer responsabilidades e criar referências para a convivência. Mas um código não pode produzir consciência. Podemos obrigar alguém a cumprir uma regra, mas não podemos obrigá-lo a compreender. Podemos impedir determinada ação pela ameaça da punição, mas não podemos, por meio da punição, garantir uma transformação interior.
Se somos responsáveis por aquilo que pensamos, sentimos, desejamos, falamos e fazemos, precisamos também compreender que não existimos isoladamente. Tudo aquilo que produzimos em nós estabelece algum tipo de relação com o mundo.
Uma palavra pode ferir; um gesto pode acolher; uma mentira pode desencadear outras mentiras; uma atitude de honestidade pode despertar confiança; uma ação egoísta pode produzir sofrimento muito além daquele que imaginamos.
Por isso, a consciência ética não se limita à pergunta: “Isso é permitido?”
Ela vai além e pergunta: “Qual é a consequência daquilo que estou fazendo?”
E, mais profundamente: “Que tipo de energia, pensamento, sentimento ou ação estou colocando no mundo?”
Talvez seja essa uma das dimensões mais elevadas da ética – compreender que nossas ações não terminam em nós. Aquilo que fazemos continua seu caminho, atinge alguém, produz alguma consequência e retorna, de alguma maneira, para a própria experiência daquele que o produziu.
Não se trata apenas de uma punição ou recompensa externa. Trata-se da compreensão de que somos participantes de uma realidade na qual causa e efeito estão permanentemente relacionados.
Quando essa compreensão se torna consciente, a necessidade de códigos diminui. Não porque as regras tenham perdido sua importância, mas porque já não são elas que determinam nossa conduta.
Talvez possamos dizer que ética é a consciência manifestada na ação. Não basta compreender intelectualmente o que é certo. É necessário que essa compreensão atravesse o pensamento, o sentimento e alcance a ação.
Talvez a verdadeira medida da ética de alguém esteja justamente naquilo que ela faz quando não existe recompensa, quando não existe exigência, quando não existe punição e quando ninguém saberá de sua escolha. É nesse silêncio que a consciência ética se revela.