Ilusão e Realidade

Nós vivemos entre a ilusão e a realidade expiando por uma fresta à espreita do futuro enquanto fugimos do passado. Essa fuga do passado é tão ilusória quanto é a nossa percepção da realidade e a perspectiva do futuro, porquanto o passado se repete ciclicamente, viciosamente, projetando nosso futuro em sucessivos episódios remasterizados. Portanto, o passado se projeta muito mais real do que a nossa expectativa de um futuro novo e diferente.

 

Nada de novo surge no horizonte da consciência, apenas reinterpretações dos mesmos episódios que transcorrem em novos cenários, com novos figurinos e os mesmos intérpretes de sempre; os mesmos enredos se repetindo e as mesmas ilusões ofuscando a luz da consciência.

 

Nós não percebemos as coisas como elas realmente são, mas apenas as imagens mentais que elas produzem em nossa consciência. O mesmo episódio, o mesmo evento, a mesma coisa, podem ser vistos sob diversas perspectivas projetando variadas interpretações a partir das imagens mentais que se projetam em nossa mente.

 

Uma folha seca caída na calçada pode ser interpretada como lixo, pode nos trazer uma perspectiva de obra de arte, nos fazer lembrar de um episódio da infância ou despertar outras sensações.

 

É uma folha seca, você dirá. Só uma folha seca caída no chão. Essa é a imagem real, ou a ilusória?

 

Parece que o passado e o futuro se encontram no presente, pois aquilo que julgamos ser moderno, recente, pode ser encontrado no passado, e se não fosse uma data indicando a sua autoria, nós nos enganaríamos fragorosamente pela ilusão de que estamos vivendo em um mundo diferente do mundo do passado. Um mundo, que na verdade mudou apenas o colorido dos seus figurinos e dos cenários, mas são os mesmos personagens de sempre repetindo os mesmos episódios da “peça vida”; somos nós. Nossas interpretações mudaram, mas nós não mudamos.

 

Veja o que escreveu David Hume (1711-1776):

 

“Parece evidente que os homens são levados, por instinto natural ou predisposição, a confiar em seus órgãos dos sentidos e, sem qualquer raciocínio ou mesmo antes de fazer qualquer uso do pensamento, creem sempre na presença de um universo exterior independente de sua percepção, o qual continuará a existir mesmo que eles e todas as criaturas dotadas de sensação se ausentem ou sejam aniquiladas. Até o mundo animal é regido por uma impressão semelhante e confia na percepção das coisas exteriores em todos os seus pensamentos e atividades.

 

Deste modo, parece evidente que, enquanto os homens seguem seu instinto natural cego e poderoso, supõem sempre que as imagens recebidas por seus sentidos são os objetos do mundo exterior, e nunca percebem que elas não são mais que representações desses objetos. Esta mesa que vemos como sendo branca, que sentimos como sólida, cremos que existe real e independentemente de nossa percepção e que constitui uma coisa exterior à nossa mente, que a percebe. Não é nossa presença que dá existência à esta mesa, nem é nossa ausência que lhe tira essa existência. Ela conserva sua existência uniforme e total, independentemente dos seres inteligentes que a percebem ou contemplam”.