A metáfora do fundo do poço nunca foi tão verdadeira. Às vezes, temo que seja necessário chegar ao fundo e ainda chafurdar na lama apodrecida e fétida até que nosso próprio sistema olfativo reconheça que estruturas em putrefação não exalam o perfume das rosas.
O autoengano é a pior forma de ilusão, pois nos permite negar o que está diante dos olhos e, ao mesmo tempo, encontrar justificativas para sustentar nossas próprias convicções. Quando a verdade e a mentira se confundem em uma mente cegada pelo fanatismo, quando o desejo de destroçar o suposto inimigo se sobrepõe ao senso de justiça e quando qualquer suposição, por mais infundada que seja, passa a servir como argumento para condenar um adversário, estabelece-se a fórmula elementar da barbárie social. Nesse cenário, os fatos deixam de ser referências para o discernimento e passam a ser selecionados conforme a conveniência de quem os interpreta.
Não costumo me manifestar publicamente sobre política, mas jamais me omiti de minhas responsabilidades como cidadão. Não sou militante de partido algum, não me identifico com a direita nem com a esquerda. Meu posicionamento político procura se pautar pelo discernimento e pela ética. Portanto, que esta manifestação não seja interpretada como defesa ou condenação deste ou daquele personagem político. O que está em questão não é a preferência por um candidato, mas a capacidade de reconhecer quando princípios fundamentais são colocados em risco, independentemente de quem seja o beneficiário ou a parte prejudicada pelos acontecimentos.
O que presenciamos no último domingo (25/20/2026), durante o segundo turno das eleições, deve nos levar a uma reflexão séria sobre o momento político que atravessamos. Não se trata de negar os resultados eleitorais, tampouco de desconsiderar a legitimidade das instituições responsáveis pelo processo democrático. Trata-se de compreender que a democracia não se esgota no ato de votar, nem se resume à vitória de um candidato ou à derrota de seu adversário. Ela exige transparência, responsabilidade, respeito às regras e confiança nos procedimentos que sustentam a vida pública.
A decisão de estender o horário de votação, anunciada quando parte das urnas já havia sido encerrada, foi um acontecimento excepcional que merece ser compreendido em seus fundamentos, circunstâncias e consequências. Ainda que a medida tenha sido justificada pela necessidade de garantir o direito ao voto diante de dificuldades enfrentadas por eleitores, decisões dessa natureza evidenciam a importância do planejamento, da clareza dos procedimentos e da comunicação transparente entre as instituições responsáveis pelo processo eleitoral. Questionar os procedimentos não significa, necessariamente, rejeitar seus resultados. Significa reconhecer que a confiança pública se fortalece quando as decisões são compreensíveis, justificadas e submetidas ao escrutínio legítimo da sociedade.
Outro episódio que merece atenção diz respeito à rapidez com que foi apresentado, após a confirmação matemática do resultado eleitoral, um pedido de apreensão dos passaportes do candidato derrotado. A proximidade temporal entre os acontecimentos, por si só, não permite concluir que tenha havido irregularidade, assim como não seria correto presumir intenções sem conhecer integralmente os fundamentos jurídicos da medida. Entretanto, quando decisões judiciais afetam direitos individuais, é fundamental que seus motivos estejam amparados em elementos concretos, que os procedimentos respeitem as garantias legais e que os mecanismos de controle previstos no ordenamento jurídico possam funcionar com independência.
Não pretendo entrar no mérito jurídico de processos que não me compete julgar, pois não sou advogado nem juiz. O que defendo é algo anterior a qualquer posicionamento partidário: o direito de questionar, de buscar esclarecimentos e de exigir que os princípios constitucionais sejam respeitados por todos, sem distinção. Uma sociedade verdadeiramente democrática não deve temer perguntas formuladas de boa-fé, assim como não deve transformar suspeitas em certezas nem condenações antecipadas em instrumentos de disputa política. O discernimento exige que saibamos distinguir fatos comprovados, interpretações possíveis e conclusões que ainda dependem de esclarecimento.
Reforço mais uma vez: não me alinho à direita nem à esquerda, muito menos ao bolsonarismo ou ao lulismo. Reconheço meus deveres e meus direitos como cidadão, entre eles não apenas o de votar, mas também o de me manifestar quando considero que princípios essenciais à vida em sociedade precisam ser defendidos. Afinal, a injustiça que toleramos hoje, por conveniência, indiferença ou alinhamento ideológico, poderá se transformar amanhã na realidade que nos atingirá diretamente. E, quando isso acontecer, talvez já não encontremos a mesma disposição para ouvir nossas reivindicações entre aqueles que hoje consideram irrelevantes as dificuldades alheias.
O propósito deste artigo é provocar uma reflexão e despertar a consciência de quem o lê para a gravidade do momento que atravessamos. Não pretendo oferecer respostas definitivas nem alimentar certezas construídas sobre suspeitas. Quero, antes, chamar a atenção para os riscos de uma sociedade que abandona o discernimento, relativiza princípios e se deixa conduzir pelo ressentimento. Quando a confiança nas instituições se fragiliza, quando as decisões públicas deixam de ser examinadas com independência e quando a população passa a aceitar como legítimo tudo aquilo que favorece o próprio grupo, o horizonte se torna cada vez mais incerto. O futuro, nessas circunstâncias, deixa de inspirar segurança e passa a exigir vigilância.
Se hoje muitos festejam uma vitória e desejam ver uma força política adversária reduzida à impotência, amanhã poderão descobrir que os princípios e as garantias que consideravam dispensáveis para seus adversários são justamente aqueles de que necessitam para proteger a si mesmos. O poder não tem compromisso permanente com as cores que hoje o representam, e os precedentes que aceitamos por conveniência podem se voltar contra nós quando as circunstâncias mudarem. Por isso, não é hora de vingança, de humilhação dos vencidos ou de comemorações que dispensem a reflexão. É hora de discernimento, responsabilidade e pacificação, sem que isso signifique renunciar à justiça ou silenciar diante de possíveis abusos. A justiça só merece esse nome quando respeita a Constituição, assegura o devido processo legal e garante a todos, sem distinção de posição política, os direitos que lhes são fundamentais.
Negar a realidade não a transforma em mentira, assim como repetir uma convicção não a converte em verdade. O autoengano pode oferecer o conforto temporário de acreditar que tudo está bem, desde que os acontecimentos favoreçam nossas expectativas. Mas a realidade não se submete às nossas preferências, e suas consequências não escolhem suas vítimas por afinidade ideológica. Talvez a reflexão mais urgente seja esta: que valor têm nossos princípios se só os defendemos quando nos favorecem?
Uma sociedade não se degrada apenas quando seus dirigentes cometem erros ou abusos, mas também quando seus cidadãos renunciam ao discernimento para proteger aqueles com quem se identificam.
Quando a lealdade política se torna mais importante que a verdade, a consciência passa a servir aos interesses do grupo, em vez de orientar nossas escolhas. E, quando finalmente percebermos que o poço é mais profundo do que imaginávamos, talvez já estejamos tão habituados ao mau cheiro que tenhamos perdido até a capacidade de reconhecê-lo.
A realidade não deixa de existir porque decidimos ignorá-la. E a injustiça não deixa de ser injustiça porque atinge alguém de quem discordamos.