Nós tendemos a criticar as bets, os impostores com suas mentorias, cursos, palestras e livros que prometem soluções para todos os problemas humanos sem qualquer esforço, como se bastasse adquirir alguma chave mágica que eles colocam à venda. Criticamos também todos aqueles que, de uma forma ou de outra, enganam as pessoas para lhes tomar o dinheiro. E, convenhamos, atualmente não faltam representantes desse tipo. Basta uma rápida visita à internet ou às redes sociais para encontrá-los em abundância.
O problema que poucos conseguem perceber é que existe um mercado para tudo isso. Não há oferta sem que exista demanda. É verdade que a própria demanda pode ser criada por estímulos sensoriais, emocionais e psicológicos. A propaganda faz isso diariamente ao estimular o indivíduo a consumir cada vez mais. Para consumir mais, é preciso comprar mais; para comprar mais, muitas vezes é necessário endividar-se. Surge, então, a ansiedade, e o indivíduo acaba perdendo o controle da própria vida.
Entretanto, há outro aspecto ao qual poucos dedicam atenção. Não é apenas a propaganda que cria demandas. As crises econômicas, sociais e existenciais constituem o terreno mais fértil para o surgimento desse mercado. O medo, a insegurança e a ânsia de escapar rapidamente das dificuldades fazem com que muitas pessoas apostem em loterias, bets, mentorias, cursos e fórmulas milagrosas que prometem sucesso, riqueza, felicidade ou iluminação. De todos os lados surgem estímulos emocionais: uns provenientes do mundo exterior, pela publicidade e pelos discursos sedutores; outros nascidos do próprio interior humano, alimentados pelos medos, pelas carências e pelas inseguranças.
Tudo isso só é possível porque existe aquilo que poderíamos chamar de mercado da ignorância. Um mercado alimentado por sistemas de controle psicológico, social, político, midiático e, em muitos casos, também religioso, sobretudo quando a religião se estrutura sobre o dogmatismo em vez da busca pela consciência. O mercado da ignorância talvez seja o mais lucrativo de todos para aqueles que fazem da exploração humana a sua vocação. Quanto mais se enfraquecem a autonomia, a vontade e a consciência do indivíduo, mais fácil se torna conduzi-lo. Manter a humanidade imersa na inconsciência é, provavelmente, um dos negócios mais rentáveis já inventados.
Contudo, essa relação é sempre uma parceria entre duas partes: oferta e demanda, explorador e explorado, consciente ou inconscientemente. Não existem vítimas absolutas nesse sistema. A responsabilidade não repousa exclusivamente sobre quem vende ilusões, mas também sobre quem deseja comprá-las. No entanto, nossa tendência é concentrar todo o julgamento apenas sobre o explorador, esquecendo-nos de investigar as razões que levam tantas pessoas a aceitar voluntariamente esse tipo de sedução.
As prisões mais eficientes, nesse sentido, não possuem paredes de concreto, muros altos ou cercas de arame farpado. São construídas de ignorância, medo, dependência emocional e incapacidade de discernimento. São prisões mentais e emocionais que mantêm o ser humano refém dos diversos sistemas de manipulação. E não se trata apenas de ignorância intelectual, pois esta não desaparece com um diploma universitário. A universidade forma profissionais e acadêmicos, mas isso não significa, necessariamente, que forme seres humanos conscientes. Muitas vezes, um acadêmico pode permanecer tão limitado na compreensão da vida quanto um analfabeto, ainda que por razões diferentes. Conhecimento técnico não é sinônimo de sabedoria.
Libertar-se desses sistemas exige muito mais do que acumular informações. Exige desenvolver discernimento. É necessário aprender a observar pela razão, pela intuição e pela experiência direta. Antes de acreditar nas promessas, convém observar quem as faz. As palavras podem ser cuidadosamente elaboradas e organizadas em discursos sedutores, mas o corpo raramente mente. A postura, a expressão facial, o olhar, o modo como alguém reage diante das situações revelam muito mais do que seus discursos. Quando as palavras não se harmonizam com a linguagem corporal, com a coerência das atitudes e com a integridade da conduta, o que existe não é verdade, mas representação.
Acreditar cegamente nessas promessas é, sem dúvida, um ato de ingenuidade. Porém, muitas vezes, existe também um componente menos confortável de reconhecer: a própria ganância. O desejo de obter grandes resultados sem o correspondente esforço torna o indivíduo vulnerável aos vendedores de ilusões. Enquanto houver quem deseje atalhos para evitar o trabalho do próprio desenvolvimento, sempre haverá quem esteja disposto a comercializar milagres.
Somente quando cérebro e coração, pensamento e sentimento, informação e conhecimento, entendimento e compreensão deixam de atuar de forma fragmentada e passam a funcionar em plena integração, surge um novo estado de consciência: a sabedoria.
A sabedoria não é o simples acúmulo de informações nem a mera soma de conhecimentos. Ela nasce da integração harmoniosa das diferentes dimensões do ser. A sabedoria é o “asfalto” que permite percorrer o caminho com menos tropeços. Não são as promessas de quem se oferece para resolver aquilo que constitui sua própria e intransferível responsabilidade, desde que você compre a suposta “chave” mágica que ele coloca à venda.
A verdadeira libertação começa quando compreendemos que não existem fórmulas mágicas para o amadurecimento humano. Consciência não pode ser comprada, sabedoria não pode ser transferida e evolução interior não pode ser terceirizada. Todo caminho autêntico exige observação de si mesmo, responsabilidade pelas próprias escolhas e disposição para enfrentar a realidade como ela é, e não como gostaríamos que fosse. É nesse momento que o mercado da ignorância começa a perder seu maior cliente: aquele que decide deixar de ser consumidor de ilusões para tornar-se construtor da própria consciência.