A Ética e os Níveis da Consciência Humana

Ética é mais que o assunto do momento, é a questão mais importante a ser resolvida no mundo atualmente. Nossa inteligência teve grande impulso no seu desenvolvimento a partir do último século, o que nos habilitou a receber, desenvolver e fazer uso das mais avançadas tecnologias. Isso implica desenvolver o senso ético para o bom uso dessas tecnologias a serviço do bem e da sustentabilidade da vida humana no planeta.

Ou nós nos tornamos definitivamente éticos, pelo menos uma porcentagem significativa da humanidade capaz de dar sustentação a esse novo mundo cada vez mais tecnológico e virtual, em que a mente humana já atua com mais força e eficácia, ou esse velho mundo se tornará um lugar definitivamente insuportável para nós vivermos.

Nossos mundos interiores estão criando incessantemente o mundo exterior no qual todos nós vivemos, e esse mundo lá fora está caótico porque nós estamos carentes de ética. Nossos conflitos internos precisam ser resolvidos antes de os expressarmos lá fora.

Neste artigo eu não tenho pretensões de demonstrar expertise no assunto ética, pois somos todos aprendizes nessa escola.  

Introduzindo o assunto, vamos a uma breve incursão pelos primeiros quatro níveis da consciência humana, aqueles que predominam no seio da humanidade atualmente e tem tudo a ver com nossos comportamentos e a ética.
 
Os Níveis da Consciência Humana

São sete os níveis possíveis à consciência humana, mas o que nos interessa, por enquanto, são os quatro primeiros.  

O mecanismo elemental da consciência humana, em suas primitivas experiências se assenta no tripé – segurança, sensações físicas e poder. São as três forças que movem o desejo, as relações e o comportamento humano primário, e impulsionam suas ações.

Segurança se traduz por todo o escopo material da vida, aquilo que proporciona ao ser humano as condições seguras para a sobrevivência – da caverna ao palacete. Está no primeiro nível da consciência humana. A luta pela sobrevivência, em seus primórdios, superou todas as outras necessidades e firmou a base da sua evolução – primeiro sobreviver preservando a espécie. É o nível da consciência instintiva, em seus máximos desdobramentos ainda hoje. Embora seja a menor porcentagem de pessoas com predominância nesse nível da consciência, atualmente, ele ainda exerce impacto significativo nos comportamentos de quase todos nós. Nós buscamos segurança o tempo todo.

As sensações físicas estão relacionadas aos cinco sentidos básicos, e englobam os prazeres e as emoções nas suas expressões mais brutas. São as emoções expressadas com paixão, ciúme, inveja, orgulho, perversidade, raiva, ódio. Também emoções de alegria e entusiasmo. A brutalidade das paixões, no entanto, as emoções intensas, tornam difíceis as relações humanas. Este é o segundo nível da consciência humana – a consciência emocional. Chantagens e manipulações são comuns nas nossas relações nesse nível da consciência emocional. Atualmente, presume-se algo em torno de trinta a trinta e cinco por cento da humanidade nesse nível da consciência, em seus máximos desdobramentos.

No terceiro nível da consciência humana está o poder (exercido sobre o outro) – o poder do ego. Em primeiro lugar eu. Trata-se do poder estruturado na posse – de bens materiais (segurança) e do outro (sensações físicas, paixões). As relações humanas são estabelecidas num patamar desequilibrado de poder e subserviência, e o mais forte domina o mais fraco. São relações baseadas num sistema de escravidão – você me pertence e me serve. O intelecto se desenvolve e se fortalece na mente ainda estruturada sobre as bases da consciência instintiva e emocional, e as relações humanas são pautadas por interesses, pelo espírito de cálculo, pelas medidas das vantagens, pela expertise aplicada no interesse egoico. Há certa decência, a moral sustenta as organizações, mas o ser humano ainda não se percebe como causador e as cobranças são fortes sobre o outro – você me deve, você me fez mal, você é incompetente e por aí vai. Atualmente, estima-se entre trinta e cinco e quarenta por cento da população terrestre nesse nível da consciência, também em seus máximos desdobramentos.

Embora nossos comportamentos, e nossas relações, ainda sejam regidos em grande parte por esses três níveis da consciência, a maioria de nós, atualmente, já possui mais consciência e com mais qualidade, estando aptos para atuar no quarto nível da consciência – a consciência ética. Nós já aprendemos a conjugação verbal na terceira pessoa – nós.

Com os avanços tecnológicos e o desenvolvimento acelerado da nossa inteligência no último século nossas relações melhoraram muito, mas nossos comportamentos ainda são movidos, em muitas ocasiões, pelos impulsos vindos da consciência em seus níveis inferiores – nós visamos em primeiro lugar a segurança, o prazer e o poder, e a vida ainda é, para muitos, sinônimo de sobreviver ao custo de muitas lutas, herança dos condicionamentos e hábitos cristalizados nas memórias.

O quarto nível da consciência humana desperta depois de muitas dores e atrozes sofrimentos ao longo da nossa evolução, nas duras experiências das vidas, nas lutas pela sobrevivência, nos acertos e erros, depois de muitas alternâncias entre posições de mando e de subserviência em sucessivas encarnações, para aprender a desapegar-se dos bens materiais e a desfrutá-los, aprender a controlar e refinar as emoções, entender os sentimentos mais profundos da alma humana e compreender assim, que o outro é igual a si e a todos. Só a partir desse nível da consciência humana a ética é possível.
 
Da Moral à Ética, o Amadurecimento Psicológico da Consciência Humana

As forças morais nos conduziram, e ainda nos conduzem, ao despertar da consciência respeitosa, fundamento possível da ética. No seu desenvolvimento histórico, a moral evoluiu e nós aprendemos a nos curvar diante do outro pela força das leis humanas e pelos aprendizados das leis morais.

O respeito mútuo, agora, deve ser o fundamento ético a orientar nossas atitudes, comportamentos e ações, ato espontâneo sem depender de obrigações por leis, sejam elas as morais ou de qualquer outra natureza. O amadurecimento psicológico nos conduz à autorreflexão por livre vontade, independentemente de haver ou não leis e regras.

Remontando ao passado, nos tempos dos hebreus liderados por Moisés a brutalidade humana teve que ser contida à força de lei moral. Através dos mandamentos e de um conjunto mais amplo de regras, o povo hebreu começa a ser educado preparando uma nova ordem social humana. Passa o tempo, e vem Jesus dizer que a lei (moral) não será destruída por Ele, mas dar-lhe-á seguimento. E a lei moral segue na consciência ética através dos seus ensinamentos, todos eles assentados sobre uma base essencialmente ética – ama o teu próximo como a ti mesmo; só faça ao outro aquilo que permites fazer a ti mesmo.

A ética desperta na autorreflexão mais profunda na consciência que já se percebe integrada ao todo – entrelaçada. Uma definição simples para entender ética pode ser – se eu pisar no seu pé vai doer o meu também. Isto é, todo desrespeito e ofensa para com o outro repercute em mim mesmo.

Tomemos por base, para estabelecer a boa conduta ética, os ensinamentos do Mestre quando nos orienta a só fazer ao outro aquilo que permitimos que seja feito a nós mesmos, e que o amor seja o fundamento das nossas relações – “ama o teu próximo como a ti mesmo”. Esses princípios são suficientes para nortear nossa conduta ética. O que vem depois são as normatizações aplicadas para cada situação específica, enquadrando-se aí as organizações, empresas e associações diversas.

A ética profissional é uma dessas normatizações, para adequação dos fundamentos éticos nas práticas do trabalho e dos negócios. E aí, cada empresa ou organização saberá como melhor adequá-los à sua realidade. Vale dizer que ética está sendo assunto bastante comentado e discutido ultimamente, e também há significativos esforços em andamento em muitas organizações no sentido de se aplicar esses princípios nas suas decisões e nas suas relações com os mercados. Mas, nesse universo corporativo nada é fácil quando se trata desse assunto. Questões cruciais para os negócios, muitas vezes se chocam com os princípios éticos e a decisão difícil é escolher entre uma coisa e outra – ser ético ou aproveitar as oportunidades mesmo que firam a ética.

No meu juízo, não há nada que justifique a prática antiética em favor de qualquer vantagem, pois, qualquer vantagem é sempre temporária, e as alternâncias cíclicas da vida ora nos colocam em posição favorável, ora desfavorável. A maneira mais inteligente de se atuar é pelo equilíbrio que cria harmonia em tudo – o senso ético.

A disposição para se aceitar que chegamos ao momento crucial para a humanidade elevar o nível da consciência, usufruindo da inteligência e dos avanços tecnológicos que já dispomos para resolver o problema do egoísmo que gera miséria e sofrimento para tantos, criando abundância através da colaboração, do compartilhamento e da solidariedade, também está cada vez mais em pauta.  

A ética floresce na consciência humana através do caminho palmilhado pela moral. A moral pode ser comparada a uma árvore com muitos galhos, e a ética é o seu florescimento, o que a embeleza. Isso pode parecer poesia, mas o que é a ética senão um senso da alma ligado à estética? – A estética que embeleza as relações humanas.

O senso ético está na alma humana, e nós só precisamos expressá-lo. Nós já aprendemos, com as rudes regras da moral de fora para dentro; agora podemos expressar nosso senso ético da alma de dentro para fora.

Ama o teu próximo como a ti mesmo; só faça ao outro o que farias por ti. Não precisamos mais que isso para restabelecer a paz perdida e construir um mundo de harmonia, equanimidade, justiça, sustentabilidade e prosperidade. Compartilhando (partilhar com) nossos conhecimentos e colaborando (laborar, trabalhar com) uns com os outros criaremos solidariedade e vida com abundância suficiente para todos.


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