Equilíbrio Emocional

Diante de uma contrariedade qualquer, a resposta que escolhemos reflete nosso grau de equilíbrio emocional e nosso nível de consciência humana. Reagir, retalhar, reclamar, revoltar-se, rechaçar, replicar, responder, ressentir, rememoram atitudes e reações que vêm do nosso passado, de nossas memórias condicionadas por repetições habituais e constantes.

Diante da contrariedade, a reflexão também nos remete ao passado, porém, com outra finalidade. Refletir significa retroceder, desviando da direção inicial ou da ação prematura do instinto, para escolher uma ação mais inteligente em resposta ao evento diante de nós. Na reflexão, ponderamos sobre as nossas atitudes e ações passadas, solicitando novas posturas diante do agora. Ação inteligente significa escolher o que traz um novo efeito, mais benéfico, e depende do equilíbrio entre o que já aprendemos e do grau de perspectiva que abrimos para aprender mais, e a resposta inteligente resulta de uma ação combinada entre o que já sabemos, com uma nova postura diante da perspectiva atual.

O ser humano ainda não está completo em sua natureza humana. Muitos dos nossos comportamentos ainda são do ser “bicho” que mora nas cavernas profundas de nosso inconsciente, e são impulsionados pelo que resta de nosso instinto primário, talvez de fato do animal que já fomos, ou pelo menos de nossos níveis primários de consciência. Dificilmente nós já conseguimos nos conter totalmente de replicar alguma forma de resposta que reflete um retrocesso comportamental. Pode ser que já não haja mais reações físicas em nossas respostas diante de uma contrariedade, e nem mesmo uma verborragia descontrolada, mas o simples fato de não esperar o tempo suficiente para que o outro conclua seu raciocínio e sua fala entremeando-a com nossas ponderações, já é indício de reação refletida do instinto primário. Nem sempre é necessário responder à fala do outro, muitas vezes só escutar é a melhor maneira de compreendê-lo ou de remetê-lo à reflexão sobre o que está dizendo. Nós somos exímios falantes, mas ainda péssimos escutantes. E esse comportamento falante vem também do nosso instinto primário e reflete nossa reação emocional, que ainda não controlamos.

Temos ainda, portanto, uma longa jornada até chegarmos ao ponto mais elevado da nossa consciência de humanidade. A pacificação completa do “bicho”, que ainda mora nas cavernas profundas de nosso inconsciente, e se enfurece diante das contrariedades, vai acontecendo vagarosamente na medida em que contemos nossos impulsos emocionais, refletindo sobre nossos comportamentos passados e escolhendo, assim, novas maneiras de agir agora não mais com um “re” à frente, isto é, não mais com retrocesso aos condicionamentos instintivos habituais, mas ponderando sobre os reflexos desse modo condicionado de comportamento no agora e no futuro, e escolhendo ações inteligentes que modifiquem a situação para melhor.

Nossas emoções são nossas reações instintivas diante de um evento qualquer, seja ele agradável ou desagradável. Se ele é agradável reagimos com contentamento e aceitação; se é desagradável reagimos com descontentamento e repulsa. Nunca pensamos se estamos apenas julgando ou se estamos de fato diante da necessidade de dar uma resposta.

As nossas emoções são excitações de energia e reações químicas em nosso organismo preparando nosso corpo para uma ação de defesa, ataque ou fuga. Quando elas correm soltas, sem o controle da consciência através da razoabilidade, nossas respostas correm o risco de serem no mínimo exageradas. Nem sempre, no entanto, há tempo suficiente para raciocinar devido à urgência, porém, mesmo assim nós podemos aprimorar nossas emoções, porquanto os perigos que nos ameaçam hoje já não são tão surpreendentes e inesperados, que não possam ser prevenidos de certa maneira, como eram antigamente quando convivíamos com animais ferozes nos ameaçando de tocaia, prontos para saltar sobre nós e nos devorar, e nosso nível de inteligência era bem menor.

O grau de amadurecimento emocional que já alcançamos pode ser medido pelo quanto de controle já temos sobre o tempo entre o evento que nos toca e a ação/resposta automática a ele. Uma fração de tempo, por minúscula que seja, é suficiente para separar a resposta do evento que a solicita. Esse tempo é precioso e decisivo na escolha da melhor resposta, a mais inteligente, que produza um efeito modificador dos padrões aos quais estamos ainda condicionados, por repetição inconsciente dos hábitos adquiridos do passado.

Controlar nossas emoções, e escolher aquela que melhor seja adequada para responder a um evento, é atitude interior que demandada por constante vigilância sobre a mente. Se as nossas emoções são reações orgânicas preparando o corpo para uma ação diante de um evento qualquer, é a mente que determina qual será esta ação. E a mente, quando tomada pelas emoções segue seu fluxo automaticamente e escolhe a resposta solicitada pelo instinto. Porém, quando a consciência domina a mente e, através da razão controla as emoções, surgem respostas inteligentes que modificam o velho padrão de sempre.

A maneira mais eficaz de eliminar os nossos comportamentos inadequados, que geram sofrimentos, é através do amadurecimento emocional. Talvez não seja possível erradicar completamente todos os tipos de inadequações ainda, em nosso atual nível de consciência humana, mas será possível, com certeza, minimizar consideravelmente aqueles comportamentos que são originados das nossas feridas do passado, e surgem através das nossas emoções refletidas pelo instinto primário e pelos condicionamentos habituais gerando sofrimento.

Haverá, ainda, outro sofrimento depois desse, mas já com uma qualidade bem diferente – o sofrimento por compaixão. É o sofrimento pela compreensão do passado aturdente do qual nos livramos, mas que ainda detém a maioria dos nossos irmãos presos a esse inferno da vida, nos níveis mais baixos da consciência humana, onde as disputas são reflexos da animalidade que se esconde nas memórias profundas do inconsciente e determinam seus comportamentos desastrosos.

Pacificar as nossas emoções, acalmando o instinto e deixando espaço para a razão equilibrar nossas ações, não mais sendo apenas reações, requer tempo e paciência, disciplina e vigilância constante sobre elas. Reagir significa permitir que o impulso instintivo prossiga conforme sempre foi; agir significa permitir que a razão surja pela fresta do tempo entre o impulso emocional e a ação automática, modificando-a para atender da maneira mais inteligente e adequada à nossa perspectiva atual.

 


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