Onde Está a Paz?

Todo sofrimento humano decorre da ideia de separação. A crença de que somos individualidades separadas umas das outras está gerando todos os tipos de conflitos, confusões, guerras e doenças na humanidade. Mas, o verdadeiro significado para a individualidade é que somos apenas uma unidade dentro de um todo. E quando esta unidade acredita ser um indivíduo separado do todo, surge medo, insegurança, ansiedade, depressão, angústia, solidão, violência e sofrimento.

A separação leva a querer tomar posse do outro, e do que lhe pertence também. E não importa os meios pelos quais isso é feito. Pode ser através dos mais diversos meios de manipulação e até por meios legais, como comércio ou prática da caridade, desde que exista a crença da falta e da carência em jogo; desde que haja a crença no valor da luta e da competição. A competição pode ser saudável, desde que ela seja um sentido de competência naquilo que empreendemos para alcançar níveis superiores de consciência e objetivos de bem comum; desde que ela seja calcada no paradigma da abundância e não da carência. No paradigma da abundância, a competição é uma constante que leva ao bem estar de todos, e todos produzem para todos e todos ganham; no paradigma da carência, a competição é obter mais para si tirando dos outros. Isso retroalimenta os conflitos, as guerras e todo tipo de evento gerador de sofrimentos ao ser humano.

Nós aprendemos muitas coisas erradas acerca de nós e da vida. Nós aprendemos que devemos lutar pela vida, lutar pelos nossos objetivos, pela paz, contra a violência, a doença; nós fazemos campanhas frequentes de luta contra uma determinada doença. Isso é o absurdo dos absurdos – lutar contra uma doença! Sem nos darmos conta, só estamos reforçando a ideia da doença, da violência, de tudo aquilo contra o qual lutamos. É lei da vida querer sobreviver, e não importa em qual dimensão isso aconteça. Não importa se a luta é contra um ser humano, um animal, uma bactéria, uma planta ou uma ideia, haverá sempre um esforço da parte agredida para se defender e sobreviver à morte, e para isso, a coisa em questão cria novas forças, se reinventa e se adapta aos campos de luta para sobreviver. É por isso que as bactérias continuam vencendo a luta empreendida contra elas, e não há antibióticos suficientes para derrotá-las. Não se mata bactéria, se corrige o terreno que permitiu que seres inofensivos se transformassem em bactérias agressivas; isso se deu por necessidade de sobrevivência. E esse terreno é a nossa organização psicobiofísica – corpo, emoções e mente.

Uma mentira precisa ser lembrada constantemente para sobreviver. Ou seja, ela precisa de energia para permanecer na mente das pessoas e ser acreditada. E essa energia muitas vezes é obtida da luta empreendida pelos defensores da verdade. Mas a verdade não precisa ser defendida, ela é a verdade por si só, embora nossa capacidade de compreendê-la ainda consiga abarcar apenas minúsculos fragmentos seus. A verdade é aquilo que pacifica; a mentira é aquilo que gera luta de qualquer natureza. Portanto, todas as lutas são apenas maneiras de gerar energia para que o caos permaneça gerando sofrimento na nossa humanidade.

A separação gera luta ou acomodação, porque, ao se sentir separado o ser humano se encontra indefeso, com medo, e reage ao medo com agressividade ou covardia. Nunca haverá paz enquanto houver separação, enquanto nós não nos conscientizarmos de que somos um só organismo cósmico, projetado holograficamente como individualidades. Dentro desse organismo cósmico, que somos todos como humanidade, cada ser individual que adoece, que comete violência, fica depressivo ou ansioso, afeta a todo o organismo; a toda a humanidade.

Onde está a paz? Você já se deparou com esta questão em seu ponto mais íntimo? E se a paz fosse mesmo uma conquista através de lutas contra o mal, contra a violência e as guerras? Qual seria a próxima luta a ser empreendida? Não haverá paz enquanto houver luta de qualquer natureza. A paz é a pacificação interior de cada ser humano, quando ele resolve todas as suas pendências emocionais, seus conflitos interiores e souber perdoar e amar incondicionalmente. O ponto de partida para a paz é o perdão, não tal como o aprendemos pelas religiões, mas como libertação dos laços dos erros que nos prendem ao passado, e da libertação das amarras com as quais mantemos aprisionados pela culpa nossos irmãos. As religiões, embora nos tenham ensinado sobre como perdoar, ainda nos mantém prisioneiros da culpa. E enquanto houver culpa não houve perdão. A libertação da culpa gera paz, porque aceitamos que somos seres evoluindo através de múltiplas experiências, algumas que deram certo, outras deram errado, mas nós não sabíamos antecipadamente como lidaríamos com elas sem nos submeter a elas. Ao julgar os outros culpados, estamos nos julgando da mesma maneira e projetando nossas próprias culpas dissimuladas. Ao discernir, aprendemos que a inteligência é o melhor meio de aprender sem gerar sofrimentos.

Pacifique-se. Comece por se perdoar a si primeiro. Comece pelo entendimento de que toda luta reforça o adversário; assim, quando você luta contra seus próprios erros e suas culpas, está criando mais conflitos e reforçando os erros e a consequente culpa por tê-los cometido, e vai projetar isso nos outros, porque não consegue se perceber errado ou culpado sem o espelho dos outros – o erro e a culpa projetados nos outros são seu próprio erro e culpa que não consegue lidar e se perdoar. É por isso que você aponta o dedo para os corruptos do poder, porque percebe neles a ponta de um iceberg que se esconde abaixo da sua própria consciência; seus próprios atos condizentes com os deles que são negados porque são tão feios quanto os deles. Enquanto não olhar para o fundo desse oceano inconsciente de si mesmo, a sua sombra apenas continuará escondendo seus fantasmas, mas eles não morrerão só porque os nega ou luta contra eles. Os fantasmas de seus atos sombrios gerando conflitos, que são projetados lá fora contra os outros ou contra algum evento, são alimentados e sobrevivem a custa da energia que você dá a eles pelas vias da luta e da negação. A negação também é uma forma de luta.

Só a luz da consciência pode transmutar o fundo sombrio do seu passado, e libertar você dessas amarras que o (a) mantém em constantes lutas atraindo situações conflitantes para a sua vida. A luz da consciência começa a ser acesa pelo perdão geral de todas as confusões nas quais se meteu no passado, e que carrega como sombra aturdente em suas memórias, e segue se expandindo no amor, sem julgar a quem ou em quais condições amar. A paz está dentro de você, de mim, de todos nós. Nós somos o caminho, a verdade e a vida; nós somos a paz. Pacifique-se!


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