Quantas vezes já me perguntei se estou desperto ou sonhando adormecido. Perdi a conta das vezes e, ainda assim, insisto nessa pergunta. E, em cada resposta que busco, encontro mais mistério e mais ignorância. Não porque o autoconhecimento não seja o caminho da resposta, mas porque tudo o que sabemos a respeito de nós são mais teorias e informações do que conhecimento, por mais que já tenhamos avançado nesse caminho.
Essa ignorância não representa uma negação ou desprezo, mas o reconhecimento da grandeza daquilo que se manifesta neste corpo e nesta personalidade, com suas limitações. Reconheço que a experiência na matéria é uma prisão para o espírito, que limita suas percepções e esconde o enredo de seu passado – quem são realmente aqueles que estão juntos em sua família e aqueles que vai encontrando pelo caminho ao longo da vida, assim como os eventos e as experiências que se apresentam em determinados momentos, sem que tenha lucidez sobre suas razões.
Quando observo algumas civilizações do passado, como os egípcios em seu período lúcido, antes da decadência, percebo que havia uma reverência maior pela natureza espiritual do ser humano. Havia símbolos e arquétipos sagrados que orientavam a busca, e tudo era sagrado porque entendiam que eram manifestações da inteligência suprema, consciências ancoradas na matéria para experimentar, aprender e evoluir.
Talvez tenhamos perdido, em algum momento do caminho, parte dessa percepção do sagrado e passado a confundir aquilo que experimentamos na matéria com a totalidade daquilo que somos.
Meu maior desafio é romper as bolhas de ilusões nas quais vivemos nossas esperanças e expectativas e onde criamos os cenários mais penosos ao progresso espiritual, priorizando unicamente o progresso material. Isso ocorre até mesmo dentro das organizações religiosas. Não em todas, evidentemente, mas naquelas que possuem estruturas organizacionais, hierarquias, dogmas e interesses políticos e financeiros acima da espiritualidade.
O Planeta, em si, já está envolto em uma imensa bolha atmosférica que assegura a manifestação das formas de vida orgânica em sua crosta, em seu interior e no espaço interno dessa bolha. Se não bastasse esta, que é imprescindível à nossa sobrevivência, criamos inúmeras outras bolhas, todas elas coloridas por nossas ilusões de poder, posse e prestígio, sustentando dentro delas nosso egocentrismo, orgulho, soberba, arrogância e vaidades.
E não são apenas as grandes ambições que constroem essas bolhas. Muitas delas se formam silenciosamente em torno de preocupações consideradas absolutamente normais e necessárias à vida. Nossa pressa e nossas preocupações com o futuro material, como uma aposentadoria financeiramente garantida, apesar de serem providências necessárias, quando assumem prioridade sobre o espaço da vida em que a espiritualidade mais floresce, tornam-se mais uma dessas bolhas de ilusões, com consequências desastrosas na hora da partida de volta.
Esse apego reflete o quanto ainda ignoramos de nós mesmos como consciências transcendentes. Perdemos a conexão em algum momento e nos agarramos ao materialismo como sustento para nossos medos e inseguranças em relação ao futuro. Tentamos controlar o incontrolável e manter em nosso poder as rédeas da vida, quando não temos poder nem mesmo sobre o tempo de permanência aqui, nesta experiência humana terrena.
Tomo minha ignorância como medida nessa reflexão, embora reconheça que há quem já tenha despertado e saiba, e muitos, talvez a maioria da humanidade, que, além de ainda ignorarem, dormem e sonham sem nem mesmo conseguir distinguir o que é sonho do que é realidade. Todo o meu esforço é para despertar, não para negar a realidade, mas para compreendê-la.
Talvez despertar não seja encontrar todas as respostas, mas começar a perceber as ilusões que antes tomávamos como verdades. Talvez seja descobrir, pouco a pouco, que muito daquilo que acreditávamos saber sobre nós mesmos não passa de uma construção desta personalidade, limitada ao pequeno espaço de tempo compreendido entre o nascimento e a morte. Se assim for, reconhecer a própria ignorância não diminui a consciência; ao contrário, abre espaço para que ela avance para além das certezas que a mantinham adormecida.
Por isso, quanto mais procuro saber quem sou, menos me atrevo a afirmar que já sei. Há algo em mim que observa, pergunta, experimenta e aprende, mas cuja grandeza ainda escapa à minha compreensão. Talvez minha maior ignorância tenha sido acreditar, algum dia, que conhecia a mim mesmo. E talvez o primeiro sinal de que estou despertando seja justamente reconhecer, com toda a lucidez que hoje consigo alcançar, que ainda sou totalmente ignorante de mim mesmo.
Nota: A inspiração para este artigo surgiu de uma frase que apareceu na legenda de uma série japonesa a que assisti recentemente na Netflix. Era uma reflexão de uma personagem que dizia assim: “Totalmente ignorante de mim mesma.”