O Populismo e a Instrumentalização da Ignorância

Criar a ignorância é uma estratégia deliberada da política e dos políticos populistas. O crescimento da inconsciência nos indivíduos, massificados por meio de slogans transformados em conceitos de verdades absolutistas e mentiras repetidas em discursos de palanque eleitoreiro, fortalece os mecanismos que sustentam a corrupção e os baixos níveis da consciência humana.

A humanidade agindo de forma primitiva ou selvagem é o principal aglutinador dessas narrativas hipócritas e mentirosas. Contudo, os indivíduos não têm ciência disso; são usados e manipulados impiedosamente, sem o menor pudor. No entanto, essa estratégia não se resume apenas ao populismo político.

Trata-se de uma tática aplicada também por outros mecanismos de controle das massas humanas que, sem se aperceberem, são conduzidas a um abismo no qual cairão mais cedo ou mais tarde. As chamadas vontades populares são, na verdade, forjadas a partir de dispositivos sustentados por uma falsa liberdade que a ditadura da moderna democracia insinua e fornece aos ingênuos que nela depositam sua crença.

Não existe pior ditadura do que a da liberdade condicionada por uma democracia sustentada em um estado democrático de direito controlado pelo Estado ou pelo Judiciário. Quase todos se enganam ao pensar que esses poderosos — sejam eles políticos ou togados — que alegam defender a democracia enquanto usurpam instituições sagradas, têm esse propósito. O que eles mais almejam, na verdade, é a perpetuação no poder.

As eleições apenas promovem a troca de nomes, mas os modelos fundamentais de poder permanecem inalterados, lado a lado, independentemente da ideologia do novo governo. A ruptura desse esquema é, por vezes, dolorosa e cobra um preço muito alto dos cidadãos.

Quando todo esse cenário é normalizado, passamos a viver no falso teatro da normalidade neurótica – uma verdadeira normose coletiva. Essa normalização nos condiciona a tal ponto que perdemos a capacidade de discernir e reagir. Acomodamo-nos e, então, passamos a ser como as galinhas em seu condomínio: elas têm ração, água e um bom poleiro para dormir, além de distrações que as mantêm “sempre felizes” em suas postagens nas redes sociais.

É claro que esta é uma alegoria irônica, pois ninguém será feliz ao abaixar a cabeça e subverter sua consciência voluntariamente para desfrutar de benefícios egoicos. As estruturas de poder que governam as coletividades, as nações e o próprio indivíduo, na atualidade, vão muito além dos poderes constituídos pelos governos formais.

Existe um verdadeiro sistema de escravidão instalado no mundo, com mecanismos de controle e manipulação mental sofisticados. Estes atuam através de estímulos sensoriais que levam o indivíduo a abrir mão de sua individualidade e de sua consciência para se tornar dócil e obediente, sendo levado, assim, a não pensar.

Diante de todo esse panorama, resta uma possibilidade real de se libertar: despertar. É preciso acordar desse sono confortável e assumir o desconforto de ser si mesmo, desenvolver a própria individuação e responsabilizar-se integralmente por suas escolhas. Tais escolhas devem ser feitas por ação da própria vontade, com a deliberação de que sejam colaborativas para uma mudança coletiva.

A instrumentalização da ignorância constitui um dos mais eficientes mecanismos de controle social, justamente porque faz o indivíduo acreditar que pensa por si mesmo quando, na realidade, apenas reproduz ideias, desejos e comportamentos previamente induzidos. O problema, portanto, não reside apenas nos sistemas de poder, mas na disposição de cada pessoa em delegar a outros a responsabilidade de pensar, escolher e decidir. Enquanto a consciência permanecer adormecida, qualquer mudança será apenas a substituição de personagens em um mesmo palco. A verdadeira transformação começa quando o indivíduo rompe com a passividade, desenvolve a capacidade de discernimento e assume a responsabilidade por sua própria consciência. Somente uma sociedade formada por indivíduos verdadeiramente conscientes poderá construir uma liberdade que não seja concedida pelo poder, mas conquistada pelo exercício permanente da lucidez, da vontade e da responsabilidade.

Espalhe a idéia!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Outros Conteúdos Para Você