Renuncie a Tudo

Simplesmente renuncie a tudo o que acredita que te pertence. Não jogue fora, não despreze, nem seja maluco(a) a ponto de pensar que tudo o que está em teu nome, em tua posse ou em teu poder seja desprezível. Não é sobre negação ou rejeição. É sobre desapego e valor.

Cada coisa, pessoa, evento, experiência ou circunstância tem seu valor real e o valor que você lhe atribui. Já o valor que você lhe atribui decorre da sua interpretação da realidade, da qual extrai os aprendizados mais importantes para o seu progresso material e espiritual, desde que esteja consciente. Do contrário, seguirá no automatismo, simplesmente acompanhando o senso comum, sem questionar nem discernir a singularidade do seu próprio aprendizado.

O valor real de cada coisa está em si mesma, e não no significado emocional que ela tem para você. Esse significado é o apego que te escraviza, embora digam que seja bom guardar objetos de valor emocional ou cultuar pessoas importantes. É justamente dessa confusão entre valor e posse que nasce o apego.

O amor não é culto à personalidade, nem posse, prestígio ou idolatria; menos ainda é apego à pessoa amada, por mais importante que ela seja ou dependa de você, como um filho, um pai, uma mãe, um irmão ou qualquer outra pessoa. É aqui que a ferida sangra para muitos, por ainda não compreenderem como se formam as famílias e quais são os comprometimentos e responsabilidades recíprocas que as unem.

O amor que aprisiona, controla e impõe, destituindo o outro de sua responsabilidade e liberdade, é apego e gera sofrimento para ambos. Todo sofrimento tem uma raiz plantada no apego. As demais raízes se espalham por terrenos derivados. O apego é próprio do egocentrismo, do desejo de primazia e de posse, da ambição pelo poder e da vaidade pelo prestígio.

O amor é compreensão, apoio, sustentação, compartilhamento e, sobretudo, respeito pelo livre-arbítrio, quando se trata de alguém que já é capaz de fazer suas próprias escolhas com discernimento, exceto quando se trata de uma criança que depende dos pais ou tutores, ou de uma pessoa com alguma invalidez que a torne dependente.

Quem ama coloca nas mãos do outro a ferramenta que lhe serve na experiência para o seu progresso. Quem ama não tira dos ombros do outro o peso de sua própria responsabilidade, mas ajuda-o a se fortalecer para suportar a carga de seu carma e destino. Quem ama, verdadeiramente, dá o melhor de si ao outro: o exemplo de dignidade, respeito e liberdade.

Mas o apego não se limita às pessoas.

Quando o apego se estende para além dos afetos emocionais, abrangendo as posses sobre objetos, títulos, honrarias, poder, dinheiro e bens materiais em geral, os tentáculos das raízes do sofrimento se espalham por toda parte. Qualquer perda da posse ou do controle torna-se um tormento emocional e mental, a ponto de, muitas vezes, provocar um infarto cardíaco.

Renunciar, portanto, não significa abandonar o mundo, mas abandonar a ilusão de que algo do mundo possa pertencer a você. Tudo o que hoje está sob sua guarda apenas passa por suas mãos durante algum tempo. Você pode cuidar, administrar, preservar e até amar profundamente pessoas e coisas, mas jamais possuí-las. A posse é uma ideia do ego; a realidade é o fluxo da existência.

Quando o apego desaparece, permanece apenas aquilo que nunca dependeu da posse: a consciência. Então, o amor deixa de aprisionar para libertar; os bens deixam de escravizar para servir; o poder deixa de dominar para se transformar em responsabilidade.

Renunciar a tudo é, paradoxalmente, a única forma de não perder nada do que realmente importa.

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