A subversão dos significados de direito e dever seria intencional ou apenas um descuido de linguagem? Para compreender essa relação em sua dimensão mais ampla, é necessário retornar às suas origens filosóficas. Antes de se tornarem conceitos jurídicos, direito e dever expressam princípios fundamentais da ordem moral e existencial. O direito nasce da ideia de reta conduta, de alinhamento com a ordem natural e com a verdade do ser, e só posteriormente se traduz em norma ou prerrogativa. O dever, por sua vez, surge da consciência de uma dívida essencial com a própria vida, com o outro e com a totalidade, transformando-se em responsabilidade ética, moral ou jurídica. Assim, direito e dever constituem um par complementar e indissociável: onde há um direito legítimo, há sempre um dever correspondente que o sustenta.
É dever primordial de todo indivíduo cumprir seu plano de manifestação essencial e, fundamentalmente, silenciar diante da falta de entendimento. Seu dever mais importante é buscar a verdade e só falar quando a encontrar. Se todos agissem assim, os conflitos cessariam e haveria paz. No entanto, na realidade atual, fala-se muito com pouco entendimento.
É direito de todo indivíduo receber aquilo que está previsto em seu plano evolutivo, de acordo com seu merecimento. O mais sagrado dos direitos não se refere a benefícios, mas ao merecimento. E o merecimento não é uma escolha: ele é aquilo que conquistamos no bem ou no mal, estando atrelado ao destino e ao carma resultante das escolhas feitas no exercício do livre-arbítrio.
Dever e direito são dois lados opostos e complementares – direito e esquerdo, inversos entre si. O que é direito vem pela mão esquerda, receptiva; o que é dever vai pela mão direita, ativa. Deduz-se, assim, que os direitos vêm depois dos deveres, isto é, são a colheita daquilo que foi semeado. A mão direita semeia; a esquerda colhe.
Entretanto, o ser humano foi induzido a acreditar que seus direitos vêm primeiro, que são sagrados e estão acima dos deveres. Busca-se liberdade por meio de decretos, esquecendo-se de que a verdadeira liberdade é uma conquista essencialmente interior. A liberdade externa é sempre limitada por leis, regras e instruções normativas – deveres a serem cumpridos em troca do direito à liberdade. Trata-se de uma liberdade relativa: de ir e vir, de se expressar, sempre condicionada às determinações do estado, da religião e da sociedade.
Somente a liberdade interior pode ser ilimitada, pois ela é mental, e o pensamento não se submete aos limites impostos por quaisquer regras externas. Ainda que tentemos reprimi-los, os pensamentos escapam e percorrem os campos infindáveis da mente. São eles as flechas que disparamos, muitas vezes em segredo, na direção de nossos desejos. Esses pensamentos refletem atitudes, que se desdobram em comportamentos; portanto, não são tão secretos quanto imaginamos. Para um bom observador, especialmente aquele que aprendeu a ler a linguagem corporal, quase nada passa despercebido. Ele não se prende às palavras, mas busca nas atitudes aquilo que revelam – sejam verdades ou dissimulações.
Ser autenticamente genuíno é, fundamentalmente, manifestar de forma sincera a verdade essencial que habita nas entranhas da alma. É expressar a individuação plena por meio da integração de tudo aquilo que se manifesta na personalidade, tornando-se uma expressão singular do potencial de inteligência, consciência e amor – atributos inatos do espírito.
A harmonia da vida não reside na reivindicação egoísta de privilégios, mas no equilíbrio sagrado entre o que oferecemos ao mundo e o que dele recebemos. Ao compreendermos que o dever é o alicerce e o direito é a consequência natural que se ergue sobre ele, transmutamos a existência de uma busca por vantagens externas e egocêntricas em uma jornada de maestria interior. É nesse alinhamento entre a ação ética e a consciência livre que o ser humano deixa de ser um súdito das circunstâncias para se tornar o arquiteto de seu próprio destino.
Assim, compreender a justa relação entre dever e direito é reconhecer que toda conquista exterior nasce de uma coerência interior. Quando o indivíduo assume seus deveres com lucidez e responsabilidade, os direitos deixam de ser exigências e passam a ser consequências naturais do próprio alinhamento com a ordem da vida. Nesse equilíbrio silencioso entre ação e receptividade, semeia-se consciência e colhe-se liberdade verdadeira.


