Tal qual espadas ou armas de fogo, nossas palavras são os instrumentos com os quais travamos um intrincado jogo de disputas por espaço, poder, domínio, posse e prestígio. Nosso falar é, na melhor das hipóteses, uma mentira honesta, bem-organizada a serviço do desejo. As palavras são as flechas do pensamento, imantadas ora pela doçura do bem, ora pela amargura do mal que brota de nossos desejos mais secretos – aqueles cuja verdadeira intenção nem mesmo nós compreendemos, pois se escondem em camadas mais profundas da consciência.
E talvez seja justamente nesse excesso de ruído, quando começamos a nos sentir incomodados, que o silêncio passe a nos chamar para o aprendizado da escuta atenciosa – não apenas ao outro, mas, fundamentalmente, às nossas próprias palavras. Quando nossos ouvidos forem suficientemente feridos pelos gritos da nossa fala e da fala dos outros, o silêncio será o bálsamo da cura. Então, e só então, compreenderemos que toda luta é separação e que apenas o silêncio unifica todos na mesma paz. Nossas palavras, então, deixarão de ser espadas, flechas e armas de fogo, para se tornarem sons silenciosos carregados de ternura e serenidade.
Silenciar não é apenas calar: é perceber que nunca estivemos verdadeiramente separados. A ideia de separação é um dos maiores equívocos da humanidade, senão o maior. Nada está verdadeiramente separado dentro da bolha do planeta e do universo. Respiramos o mesmo oxigênio que todos respiram. A bolha atmosférica do planeta funciona como uma moradia familiar. Quando agredimos um membro dessa família, a dor é sentida em ambos os lados – no agredido e no agressor. Não se trata de um retorno futuro ou de outra encarnação: a dor é recíproca e instantânea para ambos. Em um nível mais profundo, a dor é de todos.
Se nada está separado, por que ainda agimos como se estivéssemos? A resposta talvez esteja menos no mundo e mais nos mecanismos da mente. O engano está na crença de que o agressor não sente a dor do agredido. Contudo, embora isso aparentemente pareça real, o ego apenas cria uma camada de proteção que anestesia temporariamente a sensibilidade. Em algum momento, no futuro, esse retorno chegará como uma colheita tardia. E, justamente por isso, ela será mais dolorosa do que se fosse sentida no ato, quando a regeneração poderia ocorrer no mesmo instante.
Aprendemos a nos defender, a atacar ou a fugir. Aprendemos que o perigo está lá fora e que ele representa uma ameaça aleatória à nossa integridade física. Mas ainda não aprendemos que a conexão se estabelece de emissor para receptor e que todo chamado é, de algum modo, atendido. Sabemos muito pouco sobre a consciência porque ainda não nos aprofundamos suficientemente no autoconhecimento.
E se pudéssemos captar a intenção, a ideia, não apenas nas palavras, mas também na intuição? Certamente, nossa atenção e nossa escuta seriam mais refinadas. O ruído está nas palavras; e, quando apenas ouvimos, sem a escuta atenciosa, tendemos a replicar e a argumentar com nossas próprias palavras. Por isso, nosso falar se transforma em uma guerra de palavras.
E se pudéssemos encerrar uma ideia em uma única palavra, em vez de um discurso de muitas? Vamos a um teste: ÁGUA. Apenas uma palavra. Como você entenderia a ideia contida nela? Seria possível haver compreensão plena? Evidentemente, seria muito difícil, a menos que se fizesse um gesto associado, como apontar para um local, ou que se estabelecesse uma conexão mais profunda na consciência. As palavras são elementos importantes em quase todas as formas de comunicação, mas não em todas. O problema não são as palavras em si, mas o seu excesso.
Se já tivéssemos aprendido a economia da comunicação – incluindo o silêncio como ingrediente fundamental e a leitura das expressões corporais –, talvez economizássemos metade ou mais das palavras e, ainda assim, nos entenderíamos melhor. Nossa comunicação seria mais eficaz e menos barulhenta.
O silêncio tem valor inestimável na comunicação, tanto na escuta atenciosa quanto no ritmo e no tempo da fala.
Talvez o verdadeiro amadurecimento da linguagem não esteja em falar mais, mas em falar menos e escutar melhor. Quando compreendermos que cada palavra carrega a potência de ferir ou de curar, separar ou unir, deixaremos de usá-las como armas e passaremos a tratá-las como sementes. Nesse dia, nossa fala já não será uma guerra de palavras, mas um gesto de reconciliação com o outro, com o mundo e conosco mesmos.


