O Despertar no Labirinto Interior

É simples viver quando permitimos que a alma manifeste o seu potencial e abrimos espaço para que as riquezas da mente fluam de seus campos superiores. A intuição é um desses mecanismos da mente elevada: suave brisa que sopra da alma, enviando sinais pelo caminho da evolução, alento de esperança ao amanhecer e lume para os sonhos à noite.

Ao nascer, acionamos o modo “vida inconsciente” e, assim, passamos a existir em um estado aparentemente aleatório. Aprendemos o jogo da casualidade e seguimos lançando os dados da sorte, acreditando que a vida é assim mesmo, que tudo simplesmente acontece por um acaso inexplicável. Assumimos comportamentos e realizamos ações sem refletir sobre suas consequências em prazos mais longos. Às vezes mensuramos seus efeitos imediatos, mas ainda não alcançamos uma compreensão de suas repercussões futuras, que, anos à frente, podem gerar arrependimento, culpa e vergonha, formando sombras perturbadoras que se somam às já existentes, transformando a vida em um inferno de sofrimentos.

Entretanto, o encadeamento dos eventos revela que o mecanismo da vida é muito mais inteligente do que supomos. Demoramos, porém, a perceber isso. Muitas vidas – muitas encarnações – são necessárias até que despertemos para o modo “Vida Consciente”. Trata-se de uma busca constante por respostas que raramente encontramos em lugares comuns, mas que se revelam quando nos voltamos para um lugar singular: nossa vida interior.

Enquanto esse despertar não ocorre, entranhamo-nos em lutas e entreveros para acumular posses, conquistar poder e desfrutar de prestígio, e quase tudo passa a girar em torno de um único centro – o ego. Esse pequeno eu, identificação frágil e inconstante de nossa personalidade, sustenta um império de ilusões e crenças equivocadas, primeiro sobre nós mesmos, depois sobre nossa origem e destino, culminando em um labirinto de dúvidas e incertezas que tentamos resolver pela mesma matemática da racionalidade sem intuição e sem alma.

Nossas prioridades são colocadas à frente das necessidades dos outros, e fazemos isso, muitas vezes, sem perceber, até mesmo quando praticamos a caridade com foco no bem que almejamos colher como fruto daquilo que realizamos. Aceitamos o jogo e jogamos sempre em busca de alguma vantagem sobre o outro. Isso se reflete como uma regra de estímulo dos vencedores, aqueles que sobem ao topo da pirâmide social e econômica e brilham como fontes inspiradoras, com uma luz bancada por suas ambições e ganâncias. Olhamos para esses “gurus” como exemplos de sucesso, mas esquecemos que são apenas monstros com pés de barro, quando não inteiramente feitos do barro mais sujo da terra, assim como são seus castelos.

Valores invertidos que se perpetuam na vala das misérias humanas, carentes de virtudes, inteligência e amor.

Nesse processo, perdemos a conexão com nossa essência, e o mundo da vida interior é esquecido. Aprendemos que a busca está sempre fora, enquanto o clamor interno se manifesta das mais variadas formas que o corpo consegue expressar – ansiedade, depressão, doenças, acidentes, perdas. São chamados da alma para o retorno e o reencontro com a vida interior, para nos conhecermos e alcançarmos o reino que está dentro, e não fora de nós; para nos tornarmos a manifestação mais honesta e sincera do que somos, mais do que daquilo que aparentamos ser. O autoconhecimento não é apenas um produto da moda, uma palavra bonita que soa bem e concede aparência de sabedoria a quem a repete em seus discursos; ele é o caminho verdadeiro da libertação dessa escravidão da ignorância e nos coloca diante do espelho cristalino da alma. É pelo autoconhecimento que encontraremos as respostas que nos faltam.

Muito do que tomamos como realidade não passa de uma construção. A realidade nem sempre é a verdade, pois quase sempre é uma interpretação colorida pelas nossas crenças.

Na escuridão desse labirinto, vamos tropeçando uns nos outros, ferindo e sendo feridos. No entanto, é no perdão que encontramos o amor verdadeiro, aquele que cura nossas feridas. Tropeços e afetos se enfileiram como contas em um rosário infindável de aprendizados, enquanto nos regeneramos no burilamento provocado pelas arestas e contrastes que a vida cria para nós.

A consciência desperta, quase sempre, pela dor. Então nos voltamos para a verdade e começamos a compreender que somos o caminho, a verdade e a vida; que tudo já está posto em nós.

Esse despertar costuma acontecer mais tarde, quando a idade nos convida a refletir sobre o sentido que tivemos na existência. Há um mecanismo da vida que custamos a compreender: certa permissividade para errar, até aprendermos que a dor causada ao outro também dói em nós; que os erros fazem parte essencial dos aprendizados; e que as sombras carregadas na consciência se revelam por meio dos padrões mentais e emocionais que nos conduzem às escolhas que fazemos. Não porque a vida tenha como propósito nos fazer sofrer, mas porque, assim, ela encontra a única maneira de nos mostrar o que precisamos curar e iluminar em nós.

Quando reconhecemos que o labirinto não é uma prisão, mas um percurso de autodescoberta, passamos a caminhar com mais humildade, responsabilidade e compaixão. Cada passo se transforma em oportunidade de consciência, cada erro em mestre silencioso, e cada reencontro interior em um lembrete de que a luz que buscamos fora sempre esteve acesa dentro de nós – apenas ofuscada pelos véus do ego.

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