O Observador, o Arquiteto e o Operário

Somente a essência do ser humano pode alcançar a essência interior das coisas e de todo o Universo. A não ser que seja guiado por ela, o ser humano somente pode reconhecer o lado exterior das coisas.O Livro de Mirdad, Mikhail Naimy

Este artigo é uma metáfora. É a metáfora sobre a realidade da vida de um ser humano que perdeu sua essência pelo caminho.

Metáforas são verdades ditas em forma de poesia. São uma linguagem que revela a verdade sem ferir egos, muito usada por filósofos e sábios em seus ensinamentos. Por isso, esta é uma metáfora sobre o quanto um ser humano se perdeu em um caminho que não foi o de sua escolha, mas aquele que lhe propuseram seguir. E ele se tornou uma imitação – não de si mesmo, porque esta é a parte que mais despreza, mas de modelos de personagens vendidos nos “shoppings” dos sistemas que moldam as sociedades atualmente, desde a família e a escola até as nações e o próprio mundo.

O Observador. O que é ele? Veja que a pergunta não é quem é ele, mas o que é. A resposta simples e direta é: a consciência. E, se a consciência já não está mais em seu posto de observadora, quem está nele?

É aqui que entra o papel do Arquiteto – a mente. O observador é o chefe do arquiteto, mas ele perdeu poder sobre seu subordinado imediato. O arquiteto agora manda mais que o observador, manda mais que seu chefe, enquanto seu propósito deveria ser o de engendrar a criação do plano do observador – da consciência.

O terceiro na ordem hierárquica é o Operário – o ego. O operário deveria estar subordinado ao arquiteto, trabalhando para que a obra do observador tivesse um acabamento de excelência. No entanto, ele se associou ao arquiteto e, juntos, começaram a sabotar o observador, o chefe supremo na hierarquia. O ego, por sua sagacidade, conseguiu se colocar no centro, fazendo com que tudo girasse em torno de si. A mente aceitou o jogo e, assim, criou-se o egocentrismo, uma nova ideologia dominante no seio da humanidade.

Mas o observador não pode ser subornado. Quando ele se sente impotente diante de seus subordinados, simplesmente se recolhe e espera. O observador não pode criar sem o arquiteto. Então, ele se recolhe e espera.

Essencialmente, somos o observador – a consciência. Contudo, a identificação com o arquiteto (a mente) abriu a brecha fatal, e o operário (o ego) se aproveitou dessa fragilidade do sistema para assumir o poder central. Atualmente, a humanidade é governada pelo operário.

O Sistema, no entanto, opera por meio dos três – o observador, o arquiteto e o operário –, e, quando a hierarquia é desfeita, a desordem se instala e a entropia começa seu trabalho de transformação do caos para criar uma nova ordem. O Sistema é a inteligência suprema que está acima do observador; é o Emanador, o verdadeiro Criador de Tudo.

A revolução do operário, que se associou ao arquiteto, não foi somente contra o observador – foi contra o Sistema. E o observador, usurpado de seu posto de chefe, apenas aguarda a próxima ordem do Sistema.

Chegará o tempo em que o observador (a consciência) despertará e verá o estrago que o socialismo (o egocentrismo) do operário (o ego) fez. Então, começará a ocupar cada vez mais espaço na mente, colocando ordem no caos dos pensamentos e das emoções, e a hierarquia será restabelecida.

A essência se recuperará e será novamente o caminho verdadeiro. O Eu – caminho, verdade e vida.

O despertar do observador não é um acontecimento externo, mas o reconhecimento de que a desordem interior só se dissipa quando o ego retorna à sua função instrumental e a mente reassume seu papel de mediação.

Ao restaurar essa hierarquia essencial, o ser humano deixa de vagar como um personagem fragmentado nos corredores do mundo e passa a manifestar, em si, a coerência de um princípio mais alto.

Somente quando o operário atua segundo o projeto do arquiteto, e este se submete à visão do observador, a existência deixa de ser um encadeamento de ruídos e se converte em forma, sentido e direção.

Quando o observador retoma seu lugar legítimo, o arquiteto volta a servir e o operário reaprende a obedecer; não há mais conflito entre consciência, mente e ego, pois cada instância passa a operar em consonância com sua natureza própria. E é nesse retorno à ordem essencial que o ser humano deixa de ser imitação, deixa de ser eco, deixa de ser reflexo – para tornar-se presença, fundamento e verdade viva de si mesmo.

Interprete esta metáfora como quiser. Ela desperta muitos sentidos, da desconfiança ao incômodo abraço da verdade.

Espalhe a idéia!

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