Quando Nosso Olhar Muda a Direção

Nossos olhos são as lentes pelas quais capturamos as imagens externas. Mas eles são apenas lentes: não interpretam nem classificam o que passa por eles. Costuma-se dizer que é o cérebro quem realiza essa tarefa, mas há aí um equívoco. O cérebro é apenas a máquina que processa um sistema operacional – as pressuposições básicas – e, sobre ele, os demais programas que vamos adicionando ao longo da vida.

Então, se não são os olhos nem o cérebro que interpretam e classificam, quem é o observador? A resposta é simples e direta: a consciência. Mas isso nos conduz a outro problema: o que é consciência? Não abordarei essa questão neste artigo. Deixo para que você, leitor, reflita e encontre sua própria resposta nos escaninhos do labirinto de possibilidades – seja considerando a consciência como algo indefinido, seja formulando uma definição que lhe pareça mais adequada ao seu entendimento e à ocasião. Aqui, tratarei a consciência apenas como “o observador”.

Aprendemos e nos condicionamos a olhar para fora e a enxergar ali as causas de tudo, sempre pelos seus efeitos. Mas esse é o engano fundamental de grande parte do que nos foi ensinado – e também a raiz de muitos de nossos conflitos. “Você me ofendeu com suas palavras rudes.” É comum ouvir esse tipo de acusação. Mas será que alguém tem, de fato, o poder de nos ofender? O que é a ofensa, senão um conjunto de palavras que expressam insatisfação e dor interior, interpretadas por quem as ouve a partir de sua própria insatisfação e dor interior? Assim, o problema talvez não esteja naquele que ofende, mas naquele que se sente ofendido. A experiência mostra que, quando as feridas interiores são curadas, torna-se impossível ser ofendido – porque já não há mais o que se ofenda.

Isso se repete em todos os eventos externos: no encontro com o assaltante, no acidente de trânsito, no vizinho que perturba seu sossego ou no chefe que implica com você diariamente. Você sintonizou seu pensamento em uma frequência compatível com pessoas e situações que vêm ao seu encontro. Naturalmente, isso também ocorre pelo lado positivo.

O que vemos, sentimos e experimentamos está relacionado ao padrão mental que cultivamos. Não escolhemos os eventos em si – muitos são incontroláveis e inevitáveis –, mas escolhemos a forma como desejamos vivenciá-los: com dor e pesar ou com paz e serenidade.

Ainda não somos seres prontos; estamos em plena construção e sabemos muito pouco sobre o projeto humano do Criador de Tudo. Mas os aprendizados, quando bem assimilados, vão nos mostrando o caminho do bem-estar, da paz que conduz à felicidade. Para isso, basta mudar a direção do nosso olhar – ou, mais precisamente, a interpretação que fazemos dos acontecimentos.

Tudo começa dentro de nós, no corpo mental, e termina também dentro de nós, como efeito no corpo emocional e no físico. A causa pode parecer externa, mas ela é apenas a parte visível. O efeito é sempre interno: uma dor ou um prazer, uma alegria ou uma tristeza, um sentimento de raiva ou de paz.

Cada um escolhe como prefere experimentar a vida; cada um é responsável pelos efeitos, tanto quanto pelas causas, pela ordem tanto quanto pelo caos – para si e para o mundo.

Somos dotados de todos os recursos necessários para viver e progredir no plano evolutivo, mas ainda não aprendemos como usá-los nem onde eles estão guardados. Isso acontece porque fomos condicionados a olhar apenas para fora, quando o segredo está dentro de nós: na consciência, o observador.

O que me levou a escrever este artigo – que não traz nada de novo, nada que todos nós já não saibamos, mas frequentemente ignoramos por termos sido condicionados a acreditar que os outros são os causadores e não nós mesmos – foi uma citação de Emmanuel, mentor de Chico Xavier, publicada em uma rede social: “Pensar é criar. A realidade dessa criação não se exterioriza de súbito no campo dos efeitos, mas o objeto formado pelo poder mental vive no mundo íntimo, exigindo cuidados especiais para o esforço de continuidade ou extinção.”

Talvez esteja aí a raiz do problema: o esquecimento. Criamos constantemente padrões de eventos no plano mental e depois nos esquecemos deles. Mas eles continuam vivos como formas-pensamento, como amebas psíquicas, e, em algum momento, se materializam em acontecimentos que não associamos ao nosso próprio padrão mental. Achamos que o encontro com o ladrão foi acaso, que a pessoa que feriu nosso ego deve ser culpada, que o acidente foi apenas obra das circunstâncias, ou que o chefe pega no nosso pé porque não gosta de nós. Mas, da mesma forma, o amigo acolhedor, o chefe que reconhece seu esforço, o elogio e o encontro com o benfeitor também são efeitos de padrões mentais positivos.

Mudar a direção do olhar – sendo esta uma metáfora – diz muito sobre para onde o observador está voltado. É aí que tudo acontece, é ali que o evento se manifesta. Mudar a direção do olhar não é simplesmente olhar para outro lado externamente, mas voltar-se para dentro, para o mundo interior onde toda criação mental tem início.

Quando aprendemos a reconhecer que somos, ao mesmo tempo, criadores e intérpretes da realidade que vivemos, algo essencial se transforma: deixamos de ser vítimas passivas dos acontecimentos e passamos a ser participantes conscientes do próprio destino. Não se trata de negar o mundo externo, mas de compreender que ele é, em grande parte, um reflexo do mundo interno. Ao mudar a direção do olhar – da superfície para a profundidade, do efeito para a causa, do fora para o dentro – , abrimos espaço para uma nova forma de viver: mais lúcida, mais responsável e, sobretudo, mais livre.

Espalhe a idéia!

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