A vida passa ou nós passamos? Esta pode parecer uma pergunta tola para a abertura de um artigo, mas é frequentemente formulada de maneira equivocada quando afirmamos que a vida passa. Paradoxalmente, a vida não pode ser passageira, pelo simples fato de que se eterniza sem passado nem futuro – é a manifestação-princípio da existência em suas variadas formas. Nós é que somos os passageiros, fixados em um espaço restrito no qual nossas percepções são tão limitadas que mal enxergamos o pequeno círculo ao nosso redor, ao qual damos o nome de “presente”. Do passado, carregamos memórias; ao futuro, lançamos um olhar ansioso em direção a um horizonte incerto.
Enquanto viajantes pela vida, deixamos rastros e marcas, legados e uma história inscrita na memória daqueles que conviveram conosco. Surge, então, uma pergunta intrigante que poucos se fazem: que legado estou construindo para deixar como minha marca no mundo? Para muitos, a resposta parece simples e direta: desejam deixar um patrimônio material como legado aos filhos, para que tenham uma vida melhor do que a sua. Trata-se, porém, de uma ambição limitada e, em certa medida, egoísta, cujos benefícios imediatos tendem a se converter em frustrações dolorosas uma ou duas gerações adiante – a menos que esse patrimônio se torne instrumento de progresso para outros.
O verdadeiro legado, aquele que deixa um rastro luminoso, uma lembrança edificante e inspiradora na memória coletiva e uma marca significativa no mundo, é o que penetra na mente e no coração do ser humano, promovendo transformação. Não se trata apenas do que se possui ou se transmite materialmente, mas daquilo que se semeia no íntimo das pessoas e que permanece vivo para além da própria passagem pelo mundo.
Tenho me questionado profundamente sobre isso e, por vezes, sinto-me angustiado ao pensar se conseguirei deixar um legado, por mais simples que seja, que contribua para a melhoria do ser humano e para a elevação de seu nível de consciência.
Desde cedo, havia em mim o desejo de deixar um legado por meio da escrita – sonhava em escrever livros. No entanto, quando chegou o ciclo em que a vida oferece as oportunidades de construir nossos patrimônios, acabei tomando um caminho desviado daquele que, intuitivamente, reconhecia como original. Houve escolhas que me afastaram do eixo essencial e me lançaram em experiências das quais extraí aprendizados profundos, ainda que dolorosos.
Não sei se perdi o caminho ou se me perdi nele; sei apenas que foi nesse percurso que fui confrontado com a sombra do meu próprio inconsciente. Foram anos de distanciamento do propósito original, percorrendo um caminho ilusório no qual buscava realizar um sonho que não era o da minha essência, mas aquele que tentei impor à força do ego. Quanto mais eu lutava e me embrenhava nesse caminho tortuoso, mais a vida, em sua sabedoria silenciosa, me conduzia de volta.
Após mais de três décadas carregando um peso interior – um sentimento persistente de desalinhamento que se manifestava como angústia – e depois de sucessivas derrotas e frustrações, me rendi. Foi nesse momento que comecei, lentamente, a recompor as tramas destroçadas do meu destino. A ideia de escrever livros, adormecida por tanto tempo, reacendeu na consciência. E, aos setenta e um anos, consegui publicar minha primeira obra, construída a partir de um trabalho fundamentado nos Arcanos Maiores do Tarô como roteiro de autoconhecimento e transformação interior.
Pelos Caminhos do Tarô – Os Arcanos Maiores como Roteiro de Autoconhecimento
Minha abordagem não nasceu do desejo de explicar o Tarô como um sistema oracular tradicional, mas de utilizá-lo como um roteiro simbólico de autoconhecimento, capaz de conduzir o indivíduo por um processo de individuação e transformação interior.
Nesta obra, os Arcanos Maiores são apresentados como arquétipos vivos – expressões de estados de consciência que atravessamos ao longo da existência. Eles não falam apenas do destino, mas daquilo que precisa ser integrado, ressignificado e transformado dentro de nós. O Tarô, aqui, não é um instrumento de previsões, mas um espelho que reflete nossas sombras, nossas potências e os desafios que insistem em se repetir enquanto não são compreendidos.
Este não é um livro convencional, tampouco um manual técnico. Ele foi concebido como um roteiro de reflexão e experiência, e não como uma obra que entrega respostas prontas. Em muitos momentos, o leitor encontrará pausas, hiatos e ideias que não se fecham imediatamente. Esses espaços não são descuidos, mas convites à reflexão. A leitura pede tempo, silêncio e disposição para olhar para dentro. Recomenda-se que cada trecho seja assimilado com calma, permitindo que as ideias amadureçam e encontrem ressonância na experiência pessoal de quem lê.
Embora os textos possam parecer, à primeira vista, independentes entre si, existe um fio condutor que os une – como um colar de pérolas, no qual cada elemento precisa ser plenamente compreendido antes de se avançar ao próximo. Essa metodologia reflete o próprio processo de autoconhecimento: não linear, não apressado e profundamente individual.
O livro é, em si, a própria jornada de autoconhecimento que desenvolvo por meio dos Arcanos Maiores do Tarô, tendo se originado de sua apostila, e nasce do movimento interno de traduzir essa experiência em palavras, para que o leitor possa percorrer, a seu modo, o mesmo caminho reflexivo. Não há pretensão de convencer, catequizar ou impor verdades. Ele se oferece como um convite àqueles que sentem o incômodo silencioso de que há algo além da rotina, das conquistas materiais e das respostas superficiais.
Se você sente que o autoconhecimento é mais do que uma palavra da moda; se intui que crescer implica confrontar a sombra antes de buscar a luz; se percebe que a verdadeira transformação exige coragem, disciplina e responsabilidade, então estas páginas talvez lhe sirvam como companhia de jornada. O caminho que se abre aqui não é novo – é apenas o reencontro com aquilo que sempre esteve à espera de ser reconhecido.
No fim, compreende-se que a vida não é algo que simplesmente se esvai no tempo, mas um campo contínuo de experiência no qual somos chamados a despertar. Aquilo que deixamos não se mede pela quantidade de bens materiais que acumulamos, mas pela transformação que somos capazes de gerar em nós e nos outros. É nesse ponto que o caminho interior se revela: um processo consciente de retorno à essência, no qual cada passo se torna parte de um legado vivo. Assim, este trabalho – inspirado pela jornada simbólica dos Arcanos Maiores do Tarô – não se apresenta como resposta definitiva, mas como um convite ao autoconhecimento, onde o verdadeiro sentido da vida se manifesta naquilo que, silenciosamente, permanece e transforma.



