A Consciência Aprisionada no Nível Emocional

Para nos tornarmos pessoas verdadeiramente conscientes, precisamos aprender a nos conhecer e a nos transformar. O autoconhecimento é o caminho para alcançarmos níveis mais elevados de inteligência e consciência, permitindo uma compreensão mais profunda de nossos potenciais e da maneira como vivemos e nos relacionamos com nós mesmos, com os outros e com o mundo, além de nossa natureza espiritual primordial.

O autoconhecimento é um trabalho interno para elevar a consciência aos níveis superiores. Inicia-se pelo estudo, passa pelo autoestudo e pela auto-observação e prossegue no trabalho no âmbito interno. Quando um trabalho de autoconhecimento foca o plano emocional, como ocorre com frequência nas imersões que fazem tanto sucesso, a consciência tem sua fixação no segundo nível reforçada. E o segundo nível de consciência corresponde ao segundo corpo, astral ou emocional, tendo seu ponto de fixação na parte inferior do corpo, na região pélvica. Portanto, quando se fala em inteligência emocional, este é o nível da consciência.

O que me levou a escrever sobre este tema foi uma postagem que vi em uma publicação recente sobre uma imersão de três dias abordando saúde e inteligência emocional, em um hotel, cujo investimento é seletivo, acessível apenas a uma elite. Justamente essa elite que paga, sem discernimento, por eventos mágicos conduzidos por gurus autoidólatras. O pacote do evento prevê uma imersão profundamente emocional, prometendo a cura de todas as doenças. Em primeiro lugar, só o fato de prometer resultados já caracteriza trapaça; em segundo, todo trabalho no segundo corpo carece de lucidez e de despertar da consciência a níveis superiores, mantendo-a aprisionada nesse ponto.

Os resultados festejados, ainda no calor da emoção – cujos depoimentos são coletados justamente nesse momento, antes que uma flâmula de lucidez desperte – são temporários. Não duram por muito tempo, justamente porque a consciência não clareou e a inteligência fica embotada pela emoção ativada, que se perpetua por certo período. No entanto, passadas algumas semanas, senão apenas alguns dias, a velha dor de cabeça de sempre, a enxaqueca e os humores turvos retornam, e tudo volta a ser como antes. Ainda assim, pelo fato de a consciência estar aprisionada ao nível emocional, não há possibilidade de lucidez, e as pessoas continuam propagando e indicando tais eventos para amigos e colegas, como efeito da lavagem emocional bem-feita por esses espertalhões, especuladores da ignorância do ser humano sobre si mesmo.

O autoconhecimento tornou-se assunto da moda, corriqueiramente abordado por pessoas que nem mesmo são capazes de olhar para dentro de si e identificar o que se passa em seu mundo interior; que não são capazes de se desidentificar de suas personas e do ego, dos pensamentos desordenados que transitam na mente e consomem grande volume de energia, mas que possuem uma capacidade verbal bem desenvolvida e um intelecto afiado.

Em quase trinta anos de estrada nesses terrenos das terapias holísticas, esoterismos, ocultismos e espiritualidade – e trabalhando há pelo menos vinte anos no estudo da consciência, desenvolvendo práticas de autoconhecimento, individuação e autoconsciência – já vi de tudo: desde hipnoses coletivas, em que as pessoas eram deixadas completamente desequilibradas, até promessas de cura, de prosperidade fácil, de queima de carma e outras tantas aberrações.

No entanto, como bom observador, o que vejo são as mesmas pessoas com os mesmos problemas, sejam de saúde, financeiros ou de relacionamentos, porque nenhum trabalho desenvolvido no nível da consciência emocional, ou inteligência emocional, eleva a consciência a ponto de capacitar o indivíduo a ser seu próprio gestor, tornando-se verdadeiramente autoconsciente. Esses trabalhos mantêm o indivíduo refém das oscilações emocionais; e o que ele aprende é mais sobre como utilizar tais artifícios para manipular outras pessoas e delas extrair algum proveito nas relações. Isso tem sido uma forma de inteligência emocional aplicada, principalmente nos relacionamentos e nas corporações.

Em síntese, enquanto a busca pelo autoconhecimento permanecer restrita ao campo emocional, continuará girando em torno de experiências intensas, porém passageiras, que mais sedam do que despertam. Elevar a consciência exige sobriedade, disciplina e um compromisso real com a verdade interior – um caminho menos sedutor, porém autêntico, que conduz não à dependência de experiências externas, mas à conquista silenciosa da própria lucidez.

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