O Pêndulo da Consciência

Entre a memória e a imaginação existe o instante em que somos presença.

Nenhuma experiência humana acontece de forma isolada. Tudo o que pensamos, sentimos e realizamos produz consequências que se estendem muito além daquilo que somos capazes de perceber. Diversas tradições, ao longo da história, buscaram compreender esse campo de interdependência, atribuindo-lhe nomes diferentes: consciência cósmica, campo quântico, vácuo quântico, éter ou fluido cósmico universal.

Mais importante do que a terminologia é reconhecer a ideia comum que essas diferentes linguagens procuram expressar: a de que a existência constitui uma unidade e de que nenhum ser existe verdadeiramente separado dos demais. As palavras mudam conforme a tradição; a experiência que procuram descrever é que merece nossa atenção.

Se o nosso planeta ainda é um campo de experiências dolorosas, é porque continuamos a ferir uns aos outros, movidos pelo egoísmo e pela crença na separação, que alimenta o egocentrismo e nos faz esquecer que aquilo que fazemos ao outro, inevitavelmente, fazemos a nós mesmos.

Essa dinâmica, ainda pouco percebida pela maioria, está subjacente às nossas interpretações da realidade. Há um movimento sutil que vai moldando a realidade por meio da matéria mental que produzimos. Mal percebemos que a forma como nossa experiência se manifesta é, em grande parte, o retorno daquilo que emanamos por meio de nossos pensamentos e emoções. Vivenciamos os efeitos, observamo-los e tentamos compreendê-los como se estivessem desconectados de suas causas.

Esse movimento assemelha-se ao de um pêndulo que oscila continuamente entre um extremo e outro. Contudo, o que normalmente não percebemos é que, ao atingir cada extremidade, antes de iniciar o movimento de retorno, o pêndulo permanece por um instante em absoluto repouso. Esse instante, quase imperceptível, representa o tempo da consciência: o espaço em que ela tem a oportunidade de observar sem ser arrastada pelo movimento.

Enquanto a consciência permanecer identificada com a oscilação do pêndulo, esse intervalo de silêncio e observação continuará imperceptível. É justamente nesse breve espaço, porém, que está a possibilidade de romper o automatismo das reações e transformar a experiência. Antes que o pêndulo retorne, existe um instante em que a consciência pode deixar de reagir para, finalmente, escolher.

É justamente essa identificação com o movimento que faz com que nossas oscilações ocorram, em quase todas as circunstâncias, sob o comando da consciência atuando predominantemente no nível emocional. Isso significa que o plano emocional ainda governa grande parte de nossas atitudes, pensamentos e comportamentos. Nesse nível, a consciência permanece como que envolta por uma névoa, semelhante às nuvens que ocultam o Sol. Em outras palavras, a emotividade obscurece a luz da consciência, e as escolhas passam a ser guiadas pelos impulsos reativos provenientes desse plano de manifestação da própria consciência.

É por essa razão que muitos de nossos passos pela vida acabam transformando-se em tropeços.

O passado é memória; o futuro, imaginação. Vivemos oscilando entre lembranças e projeções, enquanto a vida acontece no exato instante em que o pêndulo da consciência faz uma breve pausa antes de iniciar seu movimento de volta. O mesmo acontece entre uma inspiração e uma expiração: existe um instante de repouso, quase imperceptível, em que o movimento cessa e a presença pode ser experimentada.

Somos continuamente traídos pela mente condicionada por essas oscilações e mal percebemos que perdemos o instante em que somos presença. A consciência não consegue permanecer nesse instante, porque sua abertura ainda é muito estreita, quase inteiramente obscurecida pela força das oscilações que se estabelecem entre passado e futuro, entre lembranças e projeções.

A repetição de padrões mentais, de pensamentos associados a determinadas emoções, faz com que nos tornemos viciados em certas sensações. Assim, passamos a repetir, incessantemente, diálogos mentais em torno de um desejo, de um acontecimento ou de uma experiência que desejamos reviver ou evitar. Pouco a pouco, esse movimento repetitivo fortalece os condicionamentos da mente e estreita ainda mais o espaço em que a consciência poderia simplesmente observar, sem julgar, reagir ou identificar-se.

É nesse ponto que surge uma das maiores possibilidades de transformação do ser humano. A liberdade não nasce da eliminação das oscilações da vida, mas da capacidade de reconhecer o instante de silêncio que existe entre uma reação e outra. Quanto mais ampla se torna a consciência, mais esse intervalo se expande e menos somos conduzidos pelos automatismos da mente e das emoções. Nesse espaço de presença, a realidade deixa de ser apenas uma sucessão de causas e efeitos inconscientes para tornar-se uma experiência consciente de participação na unidade da vida. É ali que o ser humano deixa de apenas reagir inconscientemente e desperta para si mesmo.

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