A VONTADE, O DESTINO E A PROVIDÊNCIA

O ser humano está sujeito ao destino e tem o livre-arbítrio, limitado pelo carma. 


A vontade supera o destino pela providência, tendo em conta que o destino pende sobre o carma indicando a direção evolutiva do espírito na humanidade.

 

Passado e futuro são duas posições nas quais a mente humana se fixa enquanto gira na roda da evolução, na matéria; o presente é o ponto no centro da roda.

 

Passado e futuro são a mesma coisa sob perspectivas diferentes; onde o círculo se fecha, o passado encontra o futuro e traça o destino do ser humano para sua evolução.

 

O ser humano se move pelas forças do desejo e da vontade; pela ação coercitiva do carma ou pela ação inteligente da providência.

Nessa perspectiva, trago para nossas reflexões um texto extraído do Capítulo Três do livro TRATADO ELEMENTAR DE CIÊNCIAS OCULTAS, Papus, Ed. Pensamento, Pág. 66/67/68.

 

“Fabre d’Olivet, no admirável resumo da doutrina de Pitágoras, dá-nos o panorama, em poucas páginas, de uma antiga psicologia. Basta lê-lo e compará-lo às doutrinas do budismo esotérico para desvendar um dos maiores segredos guardados nos santuários.

 

Eis o resumo:

 

Pitágoras reconheceu duas motivações para a ação humana – o poder da vontade e a inelutabilidade do destino. Submeteu ambos a uma lei fundamental chamada Providência, da qual eles emanam.

 

A primeira motivação é livre, a segunda é coercitiva, de tal maneira que o homem se vê colocado entre duas naturezas opostas, mas não contrárias, e indiferentemente boas ou más, de acordo com o modo como são usadas. O poder da vontade atua sobre as coisas a fazer ou sobre o futuro; o poder na inelutabilidade do destino atua sobre as coisas feitas ou sobre o passado; e ambas se alimentam incessantemente com os materiais que uma fornece à outra.

 

Como, segundo esse admirável filósofo, o futuro nasce do passado, o passado é constituído do futuro, e a reunião dos dois engendra o presente eterno, ao qual também devem sua origem – ideia das mais profundas que os estoicos adotaram. Assim, de acordo com essa doutrina, a liberdade reina no futuro, a necessidade no passado e a Providência no presente. Nada que existe ocorre por acaso, mas se deve à união da lei fundamental e providencial com a vontade humana, que a segue ou transgride diante da necessidade.

 

A harmonia entre vontade e Providência resulta no bem; o mal resulta de sua oposição. A fim de tornar o caminho que deve seguir na Terra, o homem recebeu três forças condizentes com as três modificações do ser, todas ligadas à sua vontade.

 

A primeira, associada ao corpo, é o instinto; a segunda, devotada à alma, é a vontade; a terceira, pertencente à inteligência, é a ciência ou sabedoria. Essas três forças, indiferentes em si, assumem seus nomes apenas pelo bom uso que a vontade faça delas, pois o mau uso as torna embotadas, coagindo-as a degenerar no vício e na ignorância.

 

O instinto percebe o bem ou o mal físico que resultam dos sentidos; a virtude identifica o bem ou o mal moral pelo sentimento; a ciência avalia o bem ou o mal inteligível pelo consenso. Nos sentidos, bem e mal são chamados de prazer e dor; nos sentimentos, amor e ódio; pelo consenso, verdade e erro.

 

Sensação é o sentimento existente no corpo, na alma e no espírito, formando um ternário que, avançando rumo à unidade, constitui o quartenário humano, ou o homem considerado abstratamente.

 

Os três elementos que formam o ternário atuam e reagem entre si, iluminando ou obscurecendo um ao outro; o homem, unidade que os liga, torna-se mais perfeito ou degenerado quando se junta à Unidade universal ou dela se separa.

 

Juntar-se ou separar-se, aproximar-se ou distanciar-se da Unidade universal depende inteiramente da vontade do homem, por intermédio de instrumentos fornecidos pelo corpo, pela alma e pelo espírito. Ele se torna instintivo ou embotado, virtuoso ou pervertido, sábio ou ignorante, capaz de receber mais ou menos energia, de compreender ou julgar com maior ou menor acerto o que é bom, belo e justo nas sensações, nos sentimentos e no consentimento; de distinguir com maior ou menor lucidez e precisão entre o bem e o mal; e de nunca se enganar sobre o que realmente é prazer ou dor, amor ou ódio, verdade ou falsidade.

 

O homem, tal qual acabo de descrevê-lo segundo a ideia que dele fazia Pitágoras; o homem, colocado sob o domínio da Providência, entre o passado e o futuro, dotado por natureza do livre-arbítrio que o conduz à virtude ou ao vício com base em suas próprias escolhas; o homem, repito, precisa conhecer a fonte dos infortúnios de que padece e, longe de culpar a Providência, que distribui o bem e o mal a cada pessoa conforma seu mérito e suas ações anteriores, deve culpar a si mesmo caso sofra inevitavelmente em consequência de erros passados. 

 

Com efeito, Pitágoras aceitava a ideia de muitas vidas sucessivas e ensinava que o presente, magoando-nos, e o futuro, ameaçando-nos, são a expressão de um passado que nós mesmos fizemos em vidas pregressas. Dizia que a maioria dos homens, voltando à vida, esquece as existências anteriores, mas conserva sua memória devido a um favor especial dos deuses.

 

Assim, segundo a doutrina de Pitágoras, a necessidade fatal da qual o homem sempre se queixa é um fator criado por seu livre-arbítrio; à medida que avança no tempo, ele percorre o caminho que traçou para si mesmo, e, dependendo da circunstância de modificá-lo para o bem ou para o mal, de semear virtudes ou vícios, achará esse caminho mais fácil ou mais difícil quando o percorrer da próxima vez.”

 

Fabre d’Olivet, citado no livro Tratado Elementar de Ciências Ocultas, Papus, Ed. Pensamento, Pág. 66/67/68.

 

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