O ABISMO, A FÉ E A LOUCURA DO LOUCO

Os Arcanos Maiores do Tarô representam uma jornada regenerativa do ser decaído na matéria. O termo “decaído”, aplicado aqui, no entanto, não vai ao extremo de seu significado como um decaimento degenerativo, mas somente como “empobrecido” em suas faculdades espirituais enquanto está envolvido pela matéria na encarnação. Eles indicam o caminho do buscador para encontrar a si mesmo.

 

Cada Arcano é representado por um número e um conjunto de figuras alegóricas e simbólicas. O número é atemporal e representa a essência do Arcano e não muda, as figuras são temporais e desenhadas de acordo com o entendimento de cada autor da carta representativa do Arcano.

 

Dentre os vinte e dois Arcanos Maiores do Tarô, um se destaca e ainda é causa de interpretações ambíguas – O Louco.

 

Ele surge como o Arcano zero e vinte e dois, nos maiores, mas há quem diga que ele é uma espécie de curinga e surge também entre os Arcanos Menores, como o septuagésimo oitavo Arcano.

 

O que se pode depreender disso, é que o Louco é o Arcano representativo do abismo contentor do todo e do nada. O nada é uma metáfora sobre o que não vemos porque ainda não está manifestado.

 

Portanto, O Louco representa todas as potencialidades possíveis à consciência humana nessa jornada para o autoconhecimento pela sua regeneração.

 

No zero temos a representação do princípio e do fim – o princípio está no fim e o fim está no princípio. O zero representa um sistema fechado.

 

Com essa perspectiva temos e percepção de que O Louco é uma espécie de sistema holográfico projetando-se sobre todos os demais Arcanos do Tarô, maiores e menores, que não pode ser negado, mas que não é visto por quem olha para os Arcanos somente como um sistema de cartas adivinhatórias ou divinatórias.

 

O LOUCO



“Pode o olho ver tudo o que há para ser visto e o ouvido ouvir tudo o que existe para ser ouvido?

 

Pode a mão sentir tudo o que há para ser sentido, e o nariz cheirar tudo o que há para ser cheirado?

 

Ou pode a língua provar tudo o que há para ser provado?

 

Somente quando a fé, nascida da imaginação divina, vem em seu auxílio, podem os sentidos realmente sentir e, desse modo, tornar-se escadas para o cume.

 

Os sentidos sem fé são os guias mais imponderáveis.

 

O Homem não pecou por desobedecer a Lei, mas por encobrir sua ignorância da Lei” – (de O Livro de Mirdad)

 

O precipício que está diante do Louco representa o abismo que há entre a nossa visão limitada e ilusória da realidade e a realidade em si mesma; como ainda não podemos compreendê-la.

 

Uma visão distorcida daquilo que o ser humano acredita que pode ser e o que ele é na existência com seus potenciais de inteligência e consciência ainda não manifestados.

 

Traz uma reflexão sobre o abismo existente entre as sombras projetadas nas paredes da caverna na qual estamos aprisionados, a bem da verdade por escolha própria, e a existência real.

 

Mostra o quanto nos distanciamos da verdade suprema abarcando nossas pequenas verdades relativas.

 

Viver nessa bolha de mundo circunscrito pelos limites de nossos sentidos físicos, e ao que aceitamos como ser a realidade nas sombras projetadas pela luz, é como negar a própria luz e a existência.

 

É a negação de aceitar a ignorância como o colchão no qual dormimos e sonhamos.

 

A realidade é uma projeção holográfica da existência no mundo, do eterno e essencial invisível, imperceptível e intangível aos nossos sentidos físicos.

 

A ilusão é a sombra da existência projetada na realidade, numa visão distorcida e manchada pelas nossas crenças e nossos dogmas.

 

A caverna é real, as sombras são as ilusões criadas pela projeção da luz sobre suas paredes, que nós acreditamos ser a realidade verdadeira.

 

Na projeção holográfica da existência na realidade há luz dentro e fora; na projeção da sombra a luz está somente por trás da realidade.

 

A caverna é o sistema que nos acolheu. O grande condomínio das galinhas com seus sistemas de segurança, conforto e bem-estar ilusórios. Há vários compartimentos na caverna, e cada compartimento é um sistema dentro do grande sistema, assim como no grande condomínio das galinhas há vários sub condomínios e lotes à escolha dos interessados.

 

Tudo o que fazemos é escolher o compartimento e a casa que mais nos sentimos confortáveis. E a isso chamamos liberdade.

 

Como pode um ser aprisionado ter liberdade?

 

Sabemos por acaso o significado de liberdade?

 

É possível ser livre dentro da prisão?

 

A liberdade do Louco, no entanto, nos assusta porque ele está completamente desamparado por qualquer sistema; ele está disposto a jogar tudo pela liberdade de SER e não se corromper.

 

Mas será que ele consegue?

 

Há que se ter uma dose monumental de coragem a fim de assumir o destino que nos foi dado e realizar seu plano no mundo.

 

Há que se ter uma dose monumental de coragem para deixar de nos guiar pelos pensamentos que foram implantados em nossa mente e seguir nosso coração e nossa própria consciência, a ética e o senso de bem.

 

Há que se ter uma dose monumental de coragem para desmontar o arcabouço das pressuposições básicas sobre as quais assentamos e construímos crenças com os materiais que nos foram dados como dogmas.

 

Há que se ter uma dose monumental de coragem para desconstruir nossos castelos de areia e recompor a nossa história real, sem fantasias.

 

Há que se ter uma dose monumental de coragem para nos desnudar diante de nós mesmos, no espelho da vida, e encarar todas as cores e nuanças de nosso corpo, de nossa personalidade, de nossa alma.

 

Há que se ter um Louco em cada dia para nos lembrar disso!

 

Luìz Trevizani – 03/04/2024

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